19.12.08

PALAVRA



Palavra!
Pá que lavra
A letra
E a leva
Lava
Fogo e água

.



Eis minha homenagem
Póstuma:

Um incômodo degradê
Que paira feito poeira
Em madeira que pousa
Nos galhos quebradiços
E carimba o esquecimento

O descuido desleixado do papel amarelado
Nas letras tortas ignora alguém...
Como o corpo a rastejar
A tristeza contida

Depois...
Plante-os você
Dentro da gaveta
E terá o frescor abandonado
E o fosco avassalado dos tambores
Sem a música clássica

BANDA



Sempre haverá uma banda

Num lugar, coração, lembrança

Ou aparelho de som


Sempre haverá lugar para a banda apresentar

Coração para a banda encantar

Lembrança para viver

E som propagar


Sempre haverá uma banda

Sempre haverá uma

Sempre haverá

Sempre

18.12.08

O FOGÃO

Ela o pegava pelo estômago em invenções macarrônicas, mas não era só isso, ela o pegava pelo corpo todo. Era um típico casal que causava inveja tamanha sintonia, tanto em frequência boba quanto séria. Sim, eram incríveis! Era como se o amor não sobrasse pra mais ninguém.
Ah, o amor é espertalhão, não dá para acreditar no exagero, estamos sempre procurando chifre em cabeça de vaca, e nessa busca teimosa, o inevitável aconteceu.
A paixão durou quase dois anos. De repente, não mais que de repente, ele disse que queria ficar sozinho, que atingir o ápice da perfeição de um relacionamento trazia indagações. Eram dois e viviam como um. E foi assim, numa chuva primaveril, que ele bateu a porta e saiu.
Ela era o alicerce do casamento mas suas estruturas foram abaladas. O coração ficou flácido e ela chorou como criança sem doce. Como era inevitável, na mesma semana fizeram as pazes pela briga que não aconteceu. * parêntese: a intimidade revela monstros e causa discussões homéricas, e com eles não seria diferente. Não foi. Também brigavam.
E no primeiro novo encontro ele informou que sairia com um amigo para uma dessas festas 'tuntistun'. A convidou por educação já reclamando que não tinha hora para voltar pra casa, pois queria dançar.
Ela entendeu que a vida nem sempre é valsa. Entendeu que ele estava bonito demais, cheiroso demais, animado demais para quem só quer dançar. Ele dançou, ela foi para não voltar. Foi pra casa e colocou água para ferver.

11.12.08

SHE



Uma declaração de amor dura o tempo de uma música

O amor, na música, declara o tempo e dura

A música de amor não é dura, é tempo declarado

A declaração faz o tempo do amor... A música dura

Danço com você o tempo todo e a música dura mais que a declaração. É amor!



* Ilustração ‘roubada’ do talento de Mário Jr., o menino Gogh das artes plásticas. http://fotolog.com/mario_quemario

3.12.08

CHUVA


A chuva
Não pára
Nunca mais

(Que exclamação!)

Será que a chuva
Chora?

Choro sem fim
Do nunca mais

'Pára!'
Conclamam as janelas

E a chuva
Indiferente
Além molha



ÁGUA BENTA

A chuva
Bate seus tambores
Pros santos
Que não ouso conhecer

Não lavo a alma
Só o carro
E as pontas dos dedos

Ainda é dia
E o céu
Veste-se de cinza

Ela, dama de preto,
Adormece
Sob meu olhar

Me faz lembrar
Que, apesar,
Estamos na Primavera

* Guarda-chuva: arte de Michelle Cunha

A GELADEIRA


O cara desajeitado do apartamento 502 acordou mal humorado por causa da reforma do andar de cima. Praguejava que a insônia era um desgosto solitário e que era acentuada pela presença dos martelos e outros objetos que auxiliam barulho quando o assunto é quebra-quebra. Sabia que isso faria do seu dia um lugar indesejado, afinal, já não tinha vontade de sorrir em elevadores nem dar ‘bom dia’ a estranhos. Sim, estava certo de que choveria na sua cabeça.
Vestiu-se de preto e saiu sem pressa pela porta da frente. Decidiu descer pela escada e, assim, evitar grosserias a toa. Nesse semi-exercício matinal, dois andares abaixo, encontrou Fernanda, uma vizinha que acabava de mudar e se atrapalhava ao tentar manejar caixas pesadas. Parecia comédia romântica clichê, mas a verdade é que aconteceu aquele lance do olhar que se espalha pelo corpo e revela sintomas de uma paixão inesperada:

_ Bom, bom... Bom dia! Posso ajudá-la?
_ Sim, eu agradeço.

Passados 15 minutos não trocaram uma palavra, nem mesmo se apresentaram. Era como se, se conhecessem por toda uma vida, por aquela ou por qualquer outra que não caberia explicação. Mas quando as mãos se tocaram no empurra-empurra de ajeitar a geladeira, o inevitável:

_ Se quiser eu posso guardar suas coisas na geladeira lá de casa, digo, coisas de geladeira, até a sua gelar o suficiente.
_ Não sabia que tinha de esperar para colocar as coisas dentro.
_ Nem eu sabia que te esperaria 33 anos.

Nesse instante ele a tomou pelos braços e o beijo aconteceu. Naquele instante a geladeira dela nunca mais seria ligada.

... E não viveram felizes para sempre.

Viveram juntos muitos momentos felizes carregados de oscilação. Tiveram gêmeos e se mudaram para Belo Horizonte. De vez em quando enviam fotos e pedacinhos de eternidades em recheio de pão de queijo.

24.11.08

LUTO

O corpo já estava entregue
Ao nada que sacode as folhas
Alimento de moscas

Os olhos já não abriam
Falso silêncio
Hora da agonia
A espera da espera
Do sangue que não cessa

No meu canto
Canto em reza
Um lamento
De choro contido
E calado

Pela alma
Pela destreza roubada
Pela fenda do olhar
Que já não abria

INFINITO



Se essa
Fosse
A poesia da minha vida
Seria
Inacabada
Em si
Em mim
...
Porque o amanhã
Há de chegar

16.11.08

PALPITAÇÕES


As vezes
Não cabemos
Em nós

Nessa hora

Só sabemos
Correr
Para o espelho
E os nós
Desfazem-se em laços

CAMINHADA



E a vida é um isso e aquilo
De coisas e não-coisas


Metade do que fomos
Metade do que seremos


E o presente nasce na beira de uma poesia


Qualquer que possa ser lida
Relida
Qualquer que me vista
A vista de alma


Um punhado
De sal
Na boca
Outro
De açucar
Na boca


Que fala
E me leva
Leve
No pesado

4.11.08

HERESIA

Não tenho
Hora
Para acordar
Mas os sons
Não me repousam
As sementes
Sou tornado
Destruidor
Pelos dias
Pela alegria
Das pedras

DAS ESTRELAS (Aos poetas!)


Ah, o poeta!

Insano

Dono das verdades
Todas elas
Mesmo as inventadas

Explorador

Dos avessos
E das confusões
Sentimentais

Passa o chapéu

A espera
De um amor

Ou uma dor

Na desconfiança

Reta
De ser um
Ou siamês


Esse andarilho

Trovador

Troveja pétalas

E se descabela

Almeja o topo

E o topo
Se esconde

Dentro

MATÉRIA



Brasileiro
Carrega cruz
Nas costas
E no retrovisor
Do carro

A crença
Está no ser
Tanto quanto
Para o ter

Não há mais distinção
Pesa menos
O lado do coração

ANDARILHO



Ele vinha de longe
Passo a passo
Sob o sol
E sob a chuva

A sola do pé
Já estava em carne viva
E a ferida
Era chamada
Vida

Para onde ia
Se a estrada
Era sem fim?

1.10.08

MARESIA



Meu mar secou
Num súbito
Quando a noite caiu

Nenhuma estrela veio me contar
Eu dormia

Acordei com resquício
De sal
Na boca
E nos pêlos
Acordei com vento nos cabelos

Meu mar
Não era mais meu
Não era mais mar
Meu mar
Deixou de me amar

SERTUDO


O homem do sertão
Só quer ser

Do céu:
Dono dos horizontes
Ocasos

Das águas:
Domador das ondas
Vermelhas

Da terra:
Desbravador dos chãos
Longínquos

O homem do sertão
Só quer ser
Tão
Muito do pouco
Que lhe sobra

25.8.08

ANJO AZUL (P/ meu sobrinho-afilhado Rodrigo)


Seus olhos
De cristal
Reluzem
Um doce
Que saliva
A boca

Seus olhos
Ternos
Me abraçam
Num abismo
De algodão

O vento
Faz cócegas

Seus olhos
Dizem
Me dizem:

Sou o anjo azul
Do seu coração

23.8.08

MEUS GRITOS


Qualquer dor
Faz-se poesia
No meu nó
Da garganta

Qualquer poesia
Faz-se nó
Nessa dor
De garganta

Qualquer nó
Faz-se dor
Na poesia
Da garganta

Qualquer garganta
Traz em si
Um nó de dor
De poesia

22.8.08

SUSPIRO A TOA



Se é para falar de amor,
Eu penso no mar.
Se é mar,
É bravo como touro.
Visto vermelho
Só para cair
No seu terreno!

foto de VITOR SHALON
http://garatujando.blogs.sapo.pt/arquivo/994909.html

20.8.08

INFÂNCIA (para meus sobrinhos)



A criança
Passa por mim
E não para

Tem pressa
Nas brincadeiras

E se ela passa
Por mim

Eu paro
O tempo
Pra brincar
Com ela

14.8.08

UMA PEDRA



QUAL VENTO
ESPALHA PAPÉIS
NO MEU NORTE?

SOU FORTE
NO VIÉS
DO TEMPO

TENTO
CONTAR RÉIS
DA SORTE

E A MORTE
QUANDO EM MINHA TEZ:
SENTO

* Fotografia gentilmente cedida pelo jornalista José Rezende Jr., o ZÉ dos Sertões das palavras.
http://www.joserezendejr.jor.br/

27.7.08

FÔLEGO


Só sei
Da poesia
Que invento
Em palavras
Acordadas
Num instinto
Feroz
De brado
De mulher
De homem
De criança
De louco:
Fragmentos
Da santa
Que sou
Não sou
Na confusão
De rostos
E passos
Nas galerias
De gente
E no eco
Da solidão
Azul
Do céu
Sobre minha cabeça
Que é roldana
De pensamento
E luz
Que apago
No ponto
Final

* Tela da amiga criativa Michelle Cunha:
http://www.flickr.com/photos/michellecunha

16.7.08

REFLEXO



Espio-me
Por uma fresta
Quase inércia
Nesse movimento
Anti-festa

Recolho-me
Em extrema solidão
Quase mar
Nesse ato
Anti-pão

Pulso-me
No ar
Quase espasmo
Nesse instante
Anti-par

Velo-me
Lúcida
Quase dança
Nesse intervalo
Anti-fúria

...

E o filme mudo da televisão desligada
Transmite o orgasmo estático

* Imagem = furto consentido da artista Michelle Cunha
http://www.flickr.com/photos/michellecunha

CARINHO



Tudo o que eu quero
Agora
É o afago de um cão
Numa grama
Verde e farta
De aventuras

Eu e o cão
O cão e eu

(Esse momento)
Basta


7.7.08

ESPELHO OPACO


Me vejo outra
Na sombra
Ao chão

Gigante
Na precisão
Do espaço
Horizontal

A outra
Me vê
Pelos poros
Do vão

Inteira
Somos duas
Aos pedaços
De aproximação
Frontal

21.6.08

ACORDO


Travaram, por um dia, o pacto de silêncio corporal: nenhuma palavra, nenhum olhar, nenhum sorriso. Só o grito abafado da distância que relutava em ser necessária nos dias frios de outono, nos dias de faxina quando se busca aquela individualidade que ficou no andar de baixo. Se a vida fosse filme, nesse instante, perceberíamos ao abrir da lente, um só cenário (esse que derruba a teoria do afastamento). Mas não há medida nem traçado para o espaço de um coração a outro, só é visível o buraco: um ponto, uma pinta negra pintando a pele, um incômodo. Mentira.

Arte do talentoso Mário Jr.
http://fotolog.com/mario_quemario

26.5.08

PALAVRAS 3 (para Drummond)


Nossa língua
Nossa pátria

Se a pátria
É vasta

É espelho
Da língua

É escola
Da vida

Do céu:
Quadrado
Do teto
E redondo
Das estrelas

PALAVRAS 2 (para Manuel Bandeira)


Ainda beijo, ainda falo
Falo palavras que invento
Invento uma explicação
Explicação que traduza o amor
Amor do dia-a-dia
Dia de 'teadorar'

PALAVRAS 1 (para Cecília Meireles)


A alma
Sabe mais
Que palavras

Uma só alma
Para tantas
Palavras

Ditas
Escritas
Esquecidas
Celebradas

Um dicionário
Por uma alma?

Atire
A 1ª palavra
Quem discordar

24.5.08

FUMAÇA AZUL


Lembrança
É neblina
Azul
Que desliza
Nos olhos

Surge
Sem presságio
Surge
Apenas

É sonho
Acordado
É filme
Vivido

É acontecimento
Que vai embora
Sem dar adeus

Ilstração do querido artista e arteiro Mário Jr. (link nos 'companheiros' ao lado)

LETRA S


O silêncio
Salva o sufoco
E sedimenta a saudade

A sorte
Sara o suor
E sorteia o samba

Sentimentos soluçam

A sedução é sortida
E o sonho é sincero

A simplicidade
Sangra no sensível
Eu sinto o sol
A sombra sai
O sino soa
E o 'S'
Silencia meu som

22.5.08

IRONIA


Um corpo
Atrás das grades
Pede socorro:
_ Socorro,
Venha logo mulher!
Meu coração
Não é passarinho!

19.5.08

QUARTO DO MUNDO



O quarto
Era o mundo
Que escolhera
Numa lista
De poucos
Lugares

O quarto
Era seu mundo
Em tons
Apagados

O quarto
A escolhera
Numa lista
De muitas
Pessoas

Ela
Era o mundo
Colorido
Dele

Imagem: http://www.flickr.com/photos/michellecunha

DANÇA VERMELHA


O som
Do outono
Cobria os ares
Da dança

Era como
Se condensassem
As paredes

"Nossa música"
Pensavam

E se entregavam
Acordados
Ao sonho
Quente
Daquele som

* arte na tela da companheira Michelle Cunha : http://www.flickr.com/photos/michellecunha

18.5.08

RECADO


Às 21h
O telefone
Vai tocar
O seu

Sou eu
A dizer
Oi
A dar
Sinal
Na linha

Talvez
Um mundo
Interfira

Talvez
Um sorriso
Aconteça

Talvez
O silêncio
Aja

Talvez
Um talvez
Nasça

TEATRAL (Para Camila e Renato)



De repente, o palco!
Mundos e mundos
Dentro dos meus olhos

A boca seca
O coração aperta

De repente, o palco!
Mundos e mundos
Dentro dos meus olhos

Palcos e palcos
Dentro dos seus corpos

PESSOAL


"Sentir? Sinta quem lê!"
Escrevo
Sinto ao quadrado
Reverbero entrelinhas
O que seria de mim
Sem caligrafia?

Pensar? Pense quem lê!
Na ponta
Da caneta
Reflito mundos

Os meus
Os seus
Os vossos
O que seria de mim
Sem esforços?

Amar? Ame quem lê!
Por inteiro
Página por página
Desfolho você
O que seria de mim
Sem prazer?

Sinto
Penso
Amo
Ao escrever

ARTE


Só a arte
Revela
Desvela
Vela

Chama
Sem fim
Acha
Crepitante
No mim
No sou

Do segredo:
Testemunho
Do mistério:
Confidência

Só ela
Arte
Me revela
Ao lê-la
Escrevê-la

12.5.08

MÃE (para a minha)


Mãe
Bateu asas
Sobre flores

Mãe
Espalhou
amores

Com garras
Com armas

Brancas

Mãe voou
No meu céu
Mãe é borboleta
Colorida

Mãe
É mulher
Com mais
Vida

Ilustração da artista/amiga Michelle Cunha: http://www.flickr.com/photos/michellecunha

8.5.08

SINAIS


A felicidade
Tem peso
Na sua leveza

Ela espalha-se
Com a brisa
Feito algodão

Ela deixa marcas
Feito furacão

"Dejaría en este libro toda mi alma" - Federico Garcia Lorca

Fotografia da querida companheira Karla M. Watkins: http://www.flickr.com/photos/karlamwatkins

7.5.08

BAILARINA (Para amiga-atriz Camila Almeida)


A bailarina
Escorre
Pela testa
Uma gota
De suor

Finalmente
Conquista
A sapatilha
De ponta

E me conta:
O equilíbrio
Vem de dentro
Vem do fundo

Profundo
Onde bate
O coração

Diz:
As pontas
Dos pés
São o início
Dos olhos
Para outro horizonte

De cá
Vejo
A bailarina
Sobre as nuvens

Ela acena
Rodopia
Pelos
Montes

Ilustração do ator-amado-irmão Renato Livera

FELINA (Para Lídia Benjamim)


A gata
Se esquiva
Por charme

Também tem querer

Seus olhos de fenda
Abrem-se a poucos
Abrem-se a você

A gata
Se enrosca

Nas suas meias
De lã


Lã e leite
Leite e mel


A gata
Guarda
Os mistérios
Da noite

brincadeira com suas palavras: http://lidiabenjamim.blogspot.com/

30.4.08

SOZINHA


Sozinha
Num quarto
De atmosfera
Blues

Sozinha
No corpo
Da guitarra
Que grita
Sozinha

Sozinha
No embalo
Da noite

Sozinha
Com uma canção
De Bob Dylan
Que contorna
As estrelas
Sozinha

Sozinha
A cair
No infinito
Seria o abismo?

Sozinha
A voar
No delírio
Seria martírio?

A saliva mata a sede sozinha