
24.11.09
MEMENTO

6.11.09
RITUAL
31.10.09
NASCIMENTO
Ah, se o oposto da morte
É o amor
Abro meu túmulo
Nesse dia
De finados
Que meus corpos
Sejam todos
Remexidos
E reativados
E recuperem o sabor
Das gotas
Derradeiras
Das noites
Mal dormidas
Dos suspiros
Afoitos
De pernas
Insustentáveis
Nos calores
Nos suores
Nas cores
Que tingem de amora
As avenidas
Por onde trafegamos
De mãos dadas
E acontecemos
De outono a outonos
Primavera
23.10.09
ESCALA

Deslizavam
Pelas teclas
Do computador
Como em um piano que ressoa
Pela sala
Pela casa
Pela rua
Pelo bairro
Os dedos escreviam
Palavras
Como notas
Musicais
E a canção era o silêncio
Pela cidade
Pelo país
Pelo universo
Pelo corpo
Habitado por letras
E palavras
E orações
E nenhuma reza era capaz de salvá-la
Desse mundo
Ela queria se perder no quente
Do pulso
19.8.09
ESCRITA

ESCREVO POESIA
COMO QUEM SE DESPE
NÃO É FÁCIL
NÃO É DIFÍCIL
É EXATO
NÃO É EXATO
PODE SER FÁCIL
PODE SER DIFÍCIL
TUDO DEPENDE DO POETA
E DA POESIA
DO INSTANTE
DO IMPULSO
DO EXERCÍCIO
DA LAPIDAÇÃO
DA TREPIDAÇÃO
DO PÊNDULO
EM QUE ELE
SE EQUILIBRA
ENQUANTO NÃO HÁ RESPOSTA
DO MISTÉRIO
EU ESCREVO
QUE ESCREVO
POESIA
(I)MUNDO
AS PERNAS
ESTAVAM
CINZAS
DE TÃO ENCARDIDA
A PELE
NEGRA
FALTAVAM-LHE
UMA BOLA
A ROLAR
VELOZ
PELAS GRAMAS
AFINAL
ERA SÓ
UMA CRIANÇA
MADRUGADA

DA CASA
NÃO IMAGINAM
O CLAMOR
DOS CORPOS,
A FEBRE
INTERNA
QUE PULSA
AO SOM
DA FÚRIA
DO ROCK
O SILÊNCIO
É TUDO
E NADA
O SUOR
É SAL
E ÁGUA
NÃO HÁ RECALQUE
HÁ UMA PERNA
QUE SE ENROSCA
A OUTRA
UMA BOCA
QUE SE COLA
A OUTRA
UM ESPASMO
QUE SE ESPARRAMA
NA CAMA
É...
NO RESTO
DA CASA
LÂMPADAS
SE APAGAM
18.8.09
DAS ALTURAS

14.6.09
28.5.09
TRILHOS

Entrará num expresso
De velocidade
Oscilante
Percorrerá outros
Olhares
Sinais
Céus
Que se espalham
Acolá
Sentarei à espera
Esperarei
Esperarei
Esperarei
...
Retornará
No vapor
Azul
De tanto mar
Grego
Retornará
Abrirei os braços
Sorrisos
Portas
Do verbo escancarar
Ah!
Esse inverno fechará cicatriz
CORTE

A morte
Visitou-me
Num sonho
Nele,
Ela era esperada
(Apesar de inusitada)
Uma faca
Cortou
A carne
(A minha)
Pelas costas
Tornou-me
Estática
Numa dor
Antes
Não imaginada
Com a cara
No chão
Entendi
Que era o fim
Ele
Veio banal
Fui assassinada!
O motivo:
Um vestido
De malha
Que não lhe coubera bem
A autora:
Uma vizinha
Que nem sei o nome
Assim
Sem alarde
Morri
Numa segunda-feira
Num outono
9.5.09
SAMBA BOM (Para Ana Costa)




É samba do bom
Que eu canto
Em qualquer canto
Em qualquer palco
Em qualquer chão
É samba do bom
Que encanto!
Visto meu manto de bamba
Pego o cavaco
Invoco a dança

Está armada a batucada no meu tom
É samba do bom
Que levo e trago
Nesta vida
Sou Portela
Sou Mangueira
Na avenida
E o bom do samba
É sambar até raiar o dia
7.5.09
AVE MARIA
Pra onde ia?
Da vida que se foi Se fez neblina
E a fumaça
Do esquecimento
Era sua guia
Maria só sabia
Da sina das pedras
Das rezas esquecidas
Das cantigas
E das crianças
Da dor colorida
Da televisão sem cor
Da fome e do cão
Maria não sabia
O caminho da estrada
Chutava lata
Soltava pipa
Entrava n'água
Fazia fita
Contava estrela
Na feira
Maria só sabia
Da vida que a levava
Sem casa
Sem sorte
Mas bordava
Sua estória
Com braço forte
2.5.09
SALGADO
25.4.09
PÁSSARO

1, 2, 3, 4...
Muitos
Bater de asas
A perder de vista
Num voo
Rente
Ao carro
Nesse tráfego
Para onde vai o pássaro?
Veloz
No silêncio eco
Dos ventos
Ele passa
Pássaro
E eu no meu canto,
Canto
9.4.09
BRINCADEIRA

Que colorida é a vida
Em suas descobertas
Crianças
Em suas aquarelas
A brincadeira
Sobe e desce
Na face
Do coração
*desenho encantado do meu príncipe sobrinho Vinícius
METADE
E a outra
É a mesma
Lapidada em si
Em estado primitivo
De parto
NO CHÃO
Descartável
Como objetos
De calçada
Soltos
Acima
O céu
Calado
Espreita
O incompreensível
O arranhão
Já não sangra
A dor
É opaca
Mais um passo
Ou o vento
E será desfeita
A cena
Desse amor
Reciclado
22.3.09
O COMEÇO DO FIM
A escolha é sua, o caminho é nosso, a porta deverá ser aberta
O coração deverá ser aberto, a escolha é nossa, o caminho é seu
A escolha deverá ser aberta, o caminho deverá ser aberto, a porta é sua
O coração é nosso, a porta é nossa, o coração é nosso
* homenagem ao gênio criativo do artista Fábio Costaprado
27.2.09
PRETO E BRANCO


É tempo de silêncio
E céu a passar devagar
É tempo de solidão
E sangue a escorrer lento
É tempo
E tempo morto
Nunca o silêncio foi tão alto!
Incômodo que grita
Se a lua surge
Em meus olhos
25.2.09
NA RUA

O amor está perdido
Nas sarjetas
Quietinho
Até que um olhar
Se lance a outro
Fulminante
Se há chuva
É como sol a confortar
Se há sol
É como chuva a refrescar
Se há Frida
Há meu coração a bailar
21.2.09
ÍRIS


Dentro do arco íris, a íris
Estática
No céu
Não arrisco um risco, nem traço
Abro a porta
A me perder de vista
17.2.09
PAZ
E tenho todos os cheiros
Verdes
Tempo de amadurecimento
O silêncio me convida a algazarra
A poeira me convida ao novo
Convido-me madeira
Na eira e na beira
Da palavra
Que evoco
No eco
O SINO
O sino toca
Na toca do sim
Sim, toca
Uníssono
Acorda
Solto ao ar
Toca o céu
E a folhagem
Arranha
Alto
Toca o sino
E não me toca
A pele
Só a alma,
A sina,
Toca
Toca alto
E sim
Balança
E no balanço
Da canção
Embala-me
A lança
7.2.09
AHH!

Corre, escorre
Nas e pelas
Pernas
Torneadas
Tornozelos de louça e lágrimas
Leitosas!
Corre, percorre
Nus e pêlos
Seios
Suados
Sêmem de loucura e leite
Livre!
Entranha estranha
Estranha entranha
Estrago que trago
Se guardo
Se fumo
2.2.09
POICO


_ Adivinha quem vem para o jantar?
_ A vovó e o POICO!
_ Ah é? E sabe quem vai com você ao balé?
_ Quem?
_ O POICO!
_ Não! Não! Não!
Fragmentos de uma infância: construção
Tijolos lúdicos: açúcar na boca e bolhas de sabão
Onde o POICO pode ser porco
Pode ser palhaço ou violão
E a criança crescerá... POICO será casquinha da imaginação
27.1.09
FUMAÇA

Na sala
Enquanto a sopa esfriava
Divagava devagar
E a sopa esfriava
_ Detesto sopa! Ferve meus pensamentos e pensar me torna enferma nesse inferno. Por isso há sopa em pratos de hospitais.
Beatles tocava ao fundo
DON'T LET ME DOWN!
19.12.08
.

Póstuma:
Um incômodo degradê
Que paira feito poeira
Em madeira que pousa
Nos galhos quebradiços
E carimba o esquecimento
O descuido desleixado do papel amarelado
Nas letras tortas ignora alguém...
Como o corpo a rastejar
A tristeza contida
Depois...
Plante-os você
Dentro da gaveta
E terá o frescor abandonado
E o fosco avassalado dos tambores
Sem a música clássica
BANDA
Sempre haverá uma banda
Num lugar, coração, lembrança
Ou aparelho de som
Sempre haverá lugar para a banda apresentar
Coração para a banda encantar
Lembrança para viver
E som propagar
Sempre haverá uma banda
Sempre haverá uma
Sempre haverá
Sempre
18.12.08
O FOGÃO
Ela o pegava pelo estômago em invenções macarrônicas, mas não era só isso, ela o pegava pelo corpo todo. Era um típico casal que causava inveja tamanha sintonia, tanto em frequência boba quanto séria. Sim, eram incríveis! Era como se o amor não sobrasse pra mais ninguém.Ah, o amor é espertalhão, não dá para acreditar no exagero, estamos sempre procurando chifre em cabeça de vaca, e nessa busca teimosa, o inevitável aconteceu.
A paixão durou quase dois anos. De repente, não mais que de repente, ele disse que queria ficar sozinho, que atingir o ápice da perfeição de um relacionamento trazia indagações. Eram dois e viviam como um. E foi assim, numa chuva primaveril, que ele bateu a porta e saiu.
Ela era o alicerce do casamento mas suas estruturas foram abaladas. O coração ficou flácido e ela chorou como criança sem doce. Como era inevitável, na mesma semana fizeram as pazes pela briga que não aconteceu. * parêntese: a intimidade revela monstros e causa discussões homéricas, e com eles não seria diferente. Não foi. Também brigavam.
E no primeiro novo encontro ele informou que sairia com um amigo para uma dessas festas 'tuntistun'. A convidou por educação já reclamando que não tinha hora para voltar pra casa, pois queria dançar.
Ela entendeu que a vida nem sempre é valsa. Entendeu que ele estava bonito demais, cheiroso demais, animado demais para quem só quer dançar. Ele dançou, ela foi para não voltar. Foi pra casa e colocou água para ferver.
11.12.08
SHE
Uma declaração de amor dura o tempo de uma música
O amor, na música, declara o tempo e dura
A música de amor não é dura, é tempo declarado
A declaração faz o tempo do amor... A música dura
Danço com você o tempo todo e a música dura mais que a declaração. É amor!
3.12.08
CHUVA

A GELADEIRA

Vestiu-se de preto e saiu sem pressa pela porta da frente. Decidiu descer pela escada e, assim, evitar grosserias a toa. Nesse semi-exercício matinal, dois andares abaixo, encontrou Fernanda, uma vizinha que acabava de mudar e se atrapalhava ao tentar manejar caixas pesadas. Parecia comédia romântica clichê, mas a verdade é que aconteceu aquele lance do olhar que se espalha pelo corpo e revela sintomas de uma paixão inesperada:
_ Bom, bom... Bom dia! Posso ajudá-la?
_ Sim, eu agradeço.
Passados 15 minutos não trocaram uma palavra, nem mesmo se apresentaram. Era como se, se conhecessem por toda uma vida, por aquela ou por qualquer outra que não caberia explicação. Mas quando as mãos se tocaram no empurra-empurra de ajeitar a geladeira, o inevitável:
_ Se quiser eu posso guardar suas coisas na geladeira lá de casa, digo, coisas de geladeira, até a sua gelar o suficiente.
_ Não sabia que tinha de esperar para colocar as coisas dentro.
_ Nem eu sabia que te esperaria 33 anos.
Nesse instante ele a tomou pelos braços e o beijo aconteceu. Naquele instante a geladeira dela nunca mais seria ligada.
... E não viveram felizes para sempre.
Viveram juntos muitos momentos felizes carregados de oscilação. Tiveram gêmeos e se mudaram para Belo Horizonte. De vez em quando enviam fotos e pedacinhos de eternidades em recheio de pão de queijo.
24.11.08
LUTO
O corpo já estava entregueAo nada que sacode as folhas
Alimento de moscas
Os olhos já não abriam
Falso silêncio
Hora da agonia
A espera da espera
Canto em reza
Pela alma
16.11.08
CAMINHADA

De coisas e não-coisas
Metade do que seremos
Relida
Qualquer que me vista
A vista de alma
De sal
Na boca
Outro
De açucar
Na boca
E me leva
Leve
No pesado
4.11.08
DAS ESTRELAS (Aos poetas!)

Ah, o poeta!
Insano
Dono das verdades
Todas elas
Mesmo as inventadas
Explorador
Dos avessos
E das confusões
Sentimentais
Passa o chapéu
A espera
De um amor
Ou uma dor
Na desconfiança
Reta
De ser um
Ou siamês
Esse andarilho
Trovador
Troveja pétalas
E se descabela
Almeja o topo
E o topo
Se esconde
Dentro
MATÉRIA

Brasileiro
Carrega cruz
Nas costas
E no retrovisor
Do carro
A crença
Está no ser
Tanto quanto
Para o ter
Não há mais distinção
Pesa menos
O lado do coração
ANDARILHO

Ele vinha de longe
Passo a passo
Sob o sol
E sob a chuva
A sola do pé
Já estava em carne viva
E a ferida
Era chamada
Vida
Para onde ia
Se a estrada
Era sem fim?
1.10.08
MARESIA

SERTUDO

25.8.08
ANJO AZUL (P/ meu sobrinho-afilhado Rodrigo)

De cristal
Reluzem
Um doce
Que saliva
A boca
Seus olhos
Ternos
Me abraçam
Num abismo
De algodão
O vento
Faz cócegas
Seus olhos
Dizem
Me dizem:
Sou o anjo azul
Do seu coração
23.8.08
MEUS GRITOS
22.8.08
SUSPIRO A TOA

Se é para falar de amor,
Eu penso no mar.
Se é mar,
É bravo como touro.
Visto vermelho
Só para cair
No seu terreno!
foto de VITOR SHALON
http://garatujando.blogs.sapo.pt/arquivo/994909.html
20.8.08
INFÂNCIA (para meus sobrinhos)

A criança
Passa por mim
E não para
Tem pressa
Nas brincadeiras
E se ela passa
Por mim
Eu paro
O tempo
Pra brincar
Com ela
14.8.08
UMA PEDRA

ESPALHA PAPÉIS
NO MEU NORTE?
SOU FORTE
NO VIÉS
DO TEMPO
TENTO
CONTAR RÉIS
DA SORTE
E A MORTE
QUANDO EM MINHA TEZ:
SENTO
http://www.joserezendejr.jor.br/
27.7.08
FÔLEGO

Só sei
Da poesia
Que invento
Em palavras
Acordadas
Num instinto
Feroz
De brado
De mulher
De homem
De criança
De louco:
Fragmentos
Da santa
Que sou
Não sou
Na confusão
De rostos
E passos
Nas galerias
De gente
E no eco
Da solidão
Azul
Do céu
Sobre minha cabeça
Que é roldana
De pensamento
E luz
Que apago
No ponto
Final
* Tela da amiga criativa Michelle Cunha: http://www.flickr.com/photos/michellecunha
16.7.08
REFLEXO

Espio-me
Por uma fresta
Quase inércia
Nesse movimento
Anti-festa
Recolho-me
Em extrema solidão
Quase mar
Nesse ato
Anti-pão
Pulso-me
No ar
Quase espasmo
Nesse instante
Anti-par
Velo-me
Lúcida
Quase dança
Nesse intervalo
Anti-fúria
...
E o filme mudo da televisão desligada
Transmite o orgasmo estático
http://www.flickr.com/photos/michellecunha
CARINHO

Tudo o que eu quero
Agora
É o afago de um cão
Numa grama
Verde e farta
De aventuras
Eu e o cão
O cão e eu
(Esse momento)
Basta
7.7.08
ESPELHO OPACO

Na sombra
Ao chão
Gigante
Na precisão
Do espaço
Horizontal
A outra
Me vê
Pelos poros
Do vão
Inteira
Somos duas
Aos pedaços
Frontal
21.6.08
ACORDO

Arte do talentoso Mário Jr.
http://fotolog.com/mario_quemario
18.6.08
NO ESCURO

Entre montanhas
Qual será o seu gosto
Entre pernas?
O cheiro da sua canção impregna
Entre paredes
O pretume dos seus cabelos
Entreabertos
Quero tocar-lhe a alma sem fim
E sem começo
Só mais um sim
26.5.08
PALAVRAS 3 (para Drummond)

Nossa pátria
Se a pátria
É vasta
É espelho
Da língua
É escola
Da vida
Do céu:
Quadrado
Do teto
E redondo
Das estrelas
PALAVRAS 2 (para Manuel Bandeira)

Falo palavras que invento
Invento uma explicação
Explicação que traduza o amor
Amor do dia-a-dia
Dia de 'teadorar'
PALAVRAS 1 (para Cecília Meireles)

Sabe mais
Que palavras
Uma só alma
Para tantas
Palavras
Ditas
Escritas
Esquecidas
Celebradas
Um dicionário
Por uma alma?
Atire
A 1ª palavra
Quem discordar
24.5.08
FUMAÇA AZUL

É neblina
Azul
Que desliza
Nos olhos
Surge
Sem presságio
Surge
Apenas
É sonho
Acordado
É filme
Vivido
É acontecimento
Que vai embora
Sem dar adeus
LETRA S

E sedimenta a saudade
A sorte
Sara o suor
E sorteia o samba
Sentimentos soluçam
A sedução é sortida
E o sonho é sincero
A simplicidade
Sangra no sensível
Eu sinto o sol
A sombra sai
O sino soa
E o 'S'
Silencia meu som
22.5.08
19.5.08
QUARTO DO MUNDO

Era o mundo
Que escolhera
Numa lista
De poucos
Lugares
O quarto
Era seu mundo
Em tons
Apagados
O quarto
A escolhera
Numa lista
De muitas
Pessoas
Ela
Era o mundo
Colorido
Dele
DANÇA VERMELHA

Do outono
Cobria os ares
Da dança
Era como
Se condensassem
As paredes
"Nossa música"
Pensavam
E se entregavam
Acordados
Ao sonho
Quente
Daquele som
18.5.08
RECADO

O telefone
Vai tocar
O seu
Sou eu
A dizer
Oi
A dar
Sinal
Na linha
Talvez
Um mundo
Interfira
Talvez
Um sorriso
Aconteça
Talvez
O silêncio
Aja
Talvez
Um talvez
Nasça
TEATRAL (Para Camila e Renato)

Mundos e mundos
Dentro dos meus olhos
A boca seca
O coração aperta
De repente, o palco!
Mundos e mundos
Dentro dos meus olhos
Palcos e palcos
Dentro dos seus corpos
PESSOAL

Escrevo Sinto ao quadrado
Reverbero entrelinhas
O que seria de mim
Sem caligrafia?
Pensar? Pense quem lê!
Na ponta
Da caneta
Reflito mundos
Os meus
Os seus
Os vossos
O que seria de mim
Sem esforços?
Amar? Ame quem lê!
Por inteiro
Página por página
Desfolho você
O que seria de mim
Sem prazer?
Sinto
Penso
Amo
Ao escrever
ARTE

Desvela
Vela
Chama
Sem fim
Acha
Crepitante
No mim
No sou
Do segredo:
Testemunho
Do mistério:
Confidência
Só ela
Arte
Me revela
Ao lê-la
Escrevê-la
12.5.08
MÃE (para a minha)

Bateu asas
Sobre flores
Mãe
Espalhou
amores
Com garras
Com armas
Brancas
Mãe voou
No meu céu
Mãe é borboleta
Colorida
Mãe
É mulher
Com mais
Vida
Ilustração da artista/amiga Michelle Cunha: http://www.flickr.com/photos/michellecunha
8.5.08
SINAIS
7.5.08
BAILARINA (Para amiga-atriz Camila Almeida)

Escorre
Pela testa
Uma gota
De suor
Finalmente
Conquista
A sapatilha
De ponta
E me conta:
O equilíbrio
Vem de dentro
Vem do fundo
Profundo
Onde bate
O coração
Diz:
As pontas
Dos pés
São o início
Dos olhos
Para outro horizonte
De cá
Vejo
A bailarina
Sobre as nuvens
Ela acena
Rodopia
Pelos
Montes
FELINA (Para Lídia Benjamim)

Se esquiva
Por charme
Também tem querer
Seus olhos de fenda
Abrem-se a poucos
Abrem-se a você
A gata
Se enrosca
Nas suas meias
De lã
Lã e leite
Leite e mel
A gata
Guarda
Os mistérios
Da noite
4.5.08
7ª ARTE (frames "Ponte do Tédio")
Anna: _ Ela surge na tela
Bela
A soltar
Feras
Do fundo do mar
Ela é minha
Quando se aninha
Quando se "anninha"
Na minha
Ela é demais
E tanto faz
Se é onda
Ou cais
30.4.08
SOZINHA

Num quarto
De atmosfera
Blues
Sozinha
No corpo
Da guitarra
Que grita
Sozinha
Sozinha
No embalo
Da noite
Sozinha
Com uma canção
De Bob Dylan
Que contorna
As estrelas
Sozinha
Sozinha
A cair
No infinito
Seria o abismo?
Sozinha
A voar
No delírio
Seria martírio?
A saliva mata a sede sozinha
29.4.08
SOBREVIVENTE

Chora
Na calçada
O sol
Desenha a sombra
Que ampara
O corpo
O fidalgo
Luta
Com seu próprio
Luto
O chapéu
Vazio
Aguarda
Aguarda
Aguarda
Aguarda
Fotografia hispânica da fotógrafa amiga Karla Watkins, da série "K por K".
http://www.flickr.com/photos/karlamwatkins/
28.4.08
ENCRUZILHADA

Já percorri?
Qual a cor do asfalto
Que cruzará
Meus caminhos?
Ao fim
De cada passo
Um par de chinelo
A recarregar
Baterias
Não estou
De passagem
Trouxe
Bagagem
TERTÚLIA

Que alegra
O dia
O chá
Não é apenas chá
Tem gente
Que merece
Ser feriado
No calendário
TRADUÇÃO DE OUTONO

O outono
Bate à janela:
_ Sou instável
Como o coração
Das mulheres
Tem vontades
Próprias
Acorda com sol
E dorme com chuva
Nus
Sacodem ao vento
Mesmo se crispam
No calor
No outono
É uma mulher
Que dá outro tom
imagem da querida amiga e artista plástica Michelle Cunha
www.flickr.com/michellecunha
22.4.08
PECADO

O pecado mora acima
Com suas roupas
Íntimas
Dependuradas após o suor
Santo ato
De desnudar
Os corpos
A alma
As veias
Que pulam
Das tetas
Quem mordeu a maçã?
Bendita hora
De herança
Semeada
A flor
Continuará
Intacta
Sob a luz
Do sol
Fechem
Portas
Pernas
Grades
Glandes
Sacadas
Sacanagens
Fechem!
Pois Bocas e Botigas
Desejam descansar
Sobre os azulejos
Fotografia de Karla M. Watkins http://www.flickr.com/photos/karlamwatkins/
Da parceria K por K
15.4.08
MY BLUEBERRY NIGHTS

Sobressai
O gosto do beijo
Roubado
Na sutileza
De uma noite
Azul
Feche os olhos
Abra os olhos
Quantas imagens
No piscar?
Os quilômetros
Estão para o ano
Assim como
A fruta
Está para a pausa
O copo
Sempre cheio
(De música)
O coração
Sempre vazio
(De certeza)
Doce espera
Que agoniza
A sorte
Marcada
13.4.08
OFERENDA

Oferenda dupla:
Aos céus,
Meus louvores
Minhas esperanças
Minhas vontades
Meus suores...
Minhas possíveis mentiras!
Ao público
Curioso,
Toda minha escatologia
Sincera ofensa
Que brilha ao sol
Não abaixo a cabeça
Não me curvo
Sou apenas
Curvas
Da cabeça
Para baixo
O ENCONTRO

Lado a lado
Numa solitária
Corrida
De bengalas
A vida se foi
Aonde ela vai?
Eles caminham
O caminho
Contrário
Tranqüilos
Sem temer
O esmagamento
Ninguém
A acompanhar
Com os olhos
Atentos
O cortejo
Nenhuma
Lâmpada
Acesa
Só a sépia
Da sombra
Da penumbra
Só o concreto
Do rastro
3.4.08
SONHO

Indica
O vazio
Do peito
Das horas
Das urgências
Ela não desce dos saltos
O clarão do asfalto
Indica
O rumo
Dos passos
Lentos
Da espera
Inesperada
Ela quase baila
Estática
Ela passará
Por meus olhos
Como um sonho
Plástico
De Dali
Eu
Manterei-me
Cá
Inspiração fotográfica da companheira Karla M. Watkins em seus olhares sobre-sob Barcelona
29.3.08
?
Cárcere
De minhas palavras
Se nelas
Me faço
Verdade
Até nas mentiras
Que invento?
Seria eu
Cárcere
Dessas sílabas
Que meu corpo
Exala
Até quando durmo?
Seria eu
Cárcere
Perigosa
Se eu mesma
Construo
Meus labirintos
Poéticos
E faço questão
De me perder
Nas surpresas
Diárias
Do espelho?
Eu
Que até amanhã
Sou Anna do Chico
(do Vinícius, da Marina, dos amigos...)
E cultivarei
No sensível
O farfallar
Da valsa
Da borboleta
Que um dia
Vi nos cílios
De um menino
Que descobria
O mundo
Eu
Que carrego
Os mundos
Dos mundos
Dos mundos
Dos mundos
Que me carregam
Eu
Que não suporto
As dores
Da noite
Muito menos
As do clarão
Do dia
Eu
Que me aprisiono
No silêncio
Das quatro paredes
Que meu grito
Evoca
Eu
Que faço chuva
No seu sertão
Para ser
Tão minha
ABISMO

É como
Se uma navalha
Cortasse
Lentamente
Com sua lâmina
Cega
É como
Se essa dor
Fosse inevitável
Devido aos punhos
Acorrentados
É como
Aos cataclismos
Que espalham
Sentimentos
pelos ares
ENTRA E SAI

Me veste
O corpo
Me despe
Me despe
O corpo
Me veste
A alma
Se veste
Com meu corpo
Se despe
Para minha alma
Me veste
Com seu corpo
Me despe
22.3.08
AUTOFICÇÃO

Nas frases que escrevo
Diante as margens
De meus rios
Lavro meus acontecimentos
Sou dos palcos que invento
Atuo na boca de cena
As cenas
De minhas horas
Sou eu mesma e o avesso
Sou da efemeridade
Nas paixões históricas
Diante as camas
De meus lençóis
Marco meus momentos
Sou da farsa transparente
O coringa mascarado
* criado especialmente para http://mundopsiconautico.arteblog.com.br/3/
8.3.08
MINHA ESCRITA

Ultrapassa
Minhas Geografias
Extravasa
Minhas fronteiras
Liberta
Meus limites
Só que ela
Tem chaves
Pois sou feita
De portas
Estou inacabada
Dentro
De minha
Perfeição
http://www.fotolog.com/mario_quemario
7.3.08
O CÉU QUE ME PROTEGE
VIDA AOS PEDAÇOS

A pensar
Na vida
Como um todo
E em suas partes
Como vida
Sem conclusões
Cheguei
A um lugar:
Minha cama
Na hora
De dormir
* outra polaroid do querido artista Mário Jr.
http://www.fotolog.com/mario_quemario












