24.11.09

MEMENTO


Carrego em mim
A poesia
Dos Secos e Molhados

À parte disso
Os supermercados
Gritam a madrugada

Som sem acordes
Dissonantes

Sigo viagem!
Sou carona
Da minha própria condução

6.11.09

RITUAL


Um passeio
Matinal
Com minha cadela
Pelas ruas
E praças
E avenidas
Após chuva fina
Revela uma grama mais verde
Quase fim da primavera
Me traz o vento
No nariz
E o calor
Nos passos
Só não traz
Você
Que dobrou a esquina
E meu coração

31.10.09

NASCIMENTO



Ah, se o oposto da morte
É o amor
Abro meu túmulo
Nesse dia
De finados

Que meus corpos
Sejam todos
Remexidos
E reativados
E recuperem o sabor
Das gotas
Derradeiras

Das noites
Mal dormidas
Dos suspiros
Afoitos
De pernas
Insustentáveis

Nos calores
Nos suores
Nas cores

Que tingem de amora
As avenidas
Por onde trafegamos
De mãos dadas
E acontecemos
De outono a outonos
Primavera

23.10.09

ESCALA


Os dedos
Deslizavam

Pelas teclas

Do computador

Como em um piano que ressoa
Pela sala
Pela casa
Pela rua
Pelo bairro

Os dedos escreviam
Palavras
Como notas
Musicais
E a canção era o silêncio
Pela cidade
Pelo país
Pelo universo

Pelo corpo

Habitado por letras
E palavras
E orações

E nenhuma reza era capaz de salvá-la
Desse mundo
Ela queria se perder no quente
Do pulso

19.8.09

ESCRITA



ESCREVO POESIA
COMO QUEM SE DESPE
NÃO É FÁCIL
NÃO É DIFÍCIL
É EXATO

NÃO É EXATO
PODE SER FÁCIL
PODE SER DIFÍCIL

TUDO DEPENDE DO POETA
E DA POESIA

DO INSTANTE
DO IMPULSO
DO EXERCÍCIO
DA LAPIDAÇÃO

DA TREPIDAÇÃO
DO PÊNDULO
EM QUE ELE
SE EQUILIBRA

ENQUANTO NÃO HÁ RESPOSTA
DO MISTÉRIO
EU ESCREVO
QUE ESCREVO
POESIA

(I)MUNDO



AS PERNAS
ESTAVAM
CINZAS
DE TÃO ENCARDIDA
A PELE
NEGRA

FALTAVAM-LHE
UMA BOLA
A ROLAR
VELOZ
PELAS GRAMAS

AFINAL
ERA SÓ
UMA CRIANÇA

MADRUGADA



NO RESTO
DA CASA
NÃO IMAGINAM
O CLAMOR
DOS CORPOS,
A FEBRE
INTERNA
QUE PULSA
AO SOM
DA FÚRIA
DO ROCK

O SILÊNCIO
É TUDO
E NADA

O SUOR
É SAL
E ÁGUA

NÃO HÁ RECALQUE

HÁ UMA PERNA
QUE SE ENROSCA
A OUTRA
UMA BOCA
QUE SE COLA
A OUTRA
UM ESPASMO
QUE SE ESPARRAMA
NA CAMA

É...
NO RESTO
DA CASA
LÂMPADAS
SE APAGAM

18.8.09

DAS ALTURAS



Como é lindo
Meu planeta
Visto aqui de cima

Horizonte
De tanto céu
E tanto verde

Qualquer lugar
Está imune
Da maldade
Aqui de cima

14.6.09

BRILHO



A moeda
Da sorte
Dá sorte
Se há fé
Na fé


Quando é assim
Ela brilha
O brilho dela
Nos olhos
De quem brilha

28.5.09

TRILHOS



Entrará num expresso
De velocidade
Oscilante

Percorrerá outros
Olhares
Sinais
Céus
Que se espalham
Acolá

Sentarei à espera
Esperarei
Esperarei
Esperarei
...

Retornará
No vapor
Azul
De tanto mar
Grego
Retornará

Abrirei os braços
Sorrisos
Portas
Do verbo escancarar

Ah!
Esse inverno fechará cicatriz

CORTE




A morte
Visitou-me
Num sonho

Nele,
Ela era esperada
(Apesar de inusitada)

Uma faca
Cortou
A carne
(A minha)
Pelas costas

Tornou-me
Estática
Numa dor
Antes
Não imaginada

Com a cara
No chão
Entendi
Que era o fim

Ele
Veio banal

Fui assassinada!

O motivo:
Um vestido
De malha
Que não lhe coubera bem

A autora:
Uma vizinha
Que nem sei o nome

Assim
Sem alarde
Morri
Numa segunda-feira
Num outono

9.5.09

SAMBA BOM (Para Ana Costa)




É samba do bom
Que eu canto
Em qualquer canto
Em qualquer palco
Em qualquer chão

É samba do bom
Que encanto!
Visto meu manto de bamba
Pego o cavaco
Invoco a dançaAlinhar ao centro
Está armada a batucada no meu tom

É samba do bom
Que levo e trago
Nesta vida

Sou Portela
Sou Mangueira
Na avenida

E o bom do samba
É sambar até raiar o dia

7.5.09

AVE MARIA

Maria não sabia da vida
Da vida pra levar
Pra onde ia?

Da vida que se foi Se fez neblina
E a fumaça
Do esquecimento
Era sua guia

Maria
só sabia

Da sina das pedras
Das rezas esquecidas
Das cantigas
E das crianças

Da dor colorida
Da televisão sem cor
Da fome e do cão

Maria
não sabia

O caminho da estrada
Chutava lata
Soltava pipa
Entrava n'água
Fazia fita
Contava estrela
Na feira

Maria
só sabia

Da vida que a levava
Sem casa
Sem sorte
Mas bordava
Sua estória
Com braço forte

2.5.09

SALGADO


E se ela partisse
De repente
Como uma estrela
Que parece cair?

E se ela partisse
Como se entrasse
No trem
Que não regressa?

E se ela partisse
Como o sonho
Que não há lembrança?

E se ela partisse?

Meu coração
Partido
Em pedaços
Pontiagudos

Rasgaria
Minh'alma
Em tortura
Dilacerante

Meu cambalear
Sôfrego
Desmoronaria
Sarjetas

Adeus alicerces do mundo!

Mundo imundo
Que desplanta
Flores de alegria
Desmundo de prazer

Só a paisagem
Quadrada
De uma cela
Sem sol

Só o peito
Trajado
De hospício

Nada mais
Que um corpo
Oco
Vazio
Sozinho

Nada mais que o nada

Nada restaria
De pavio
Ao brilho
Que um dia
Tive no olhar

Sem sorrisos
Sem presente
Sem futuro

Uma capa
Mofada
De super herói

Um palhaço
Sem criança

Um céu
Sem lua

E eu
Sem mar

25.4.09

PÁSSARO



1, 2, 3, 4...
Muitos
Bater de asas
A perder de vista
Num voo
Rente
Ao carro
Nesse tráfego

Para onde vai o pássaro?

Veloz
No silêncio eco
Dos ventos
Ele passa
Pássaro
E eu no meu canto,
Canto

9.4.09

BRINCADEIRA



Que colorida é a vida
Em suas descobertas
Crianças



Que sorriso é a vida
Em suas aquarelas


A brincadeira
Sobe e desce
Na face
Do coração


*desenho encantado do meu príncipe sobrinho Vinícius

METADE

... E a outra
Da mesma moeda
Paga para ver o inacabado

E a outra
É a mesma
Lapidada em si
Em estado primitivo
De parto

WEBCAM



Está aberta
A cortina
Desse palco

Quem se apresenta
Está fechado

NO CHÃO



Coração frágil
Descartável
Como objetos
De calçada
Soltos

Acima
O céu
Calado
Espreita
O incompreensível

O arranhão
Já não sangra
A dor
É opaca

Mais um passo
Ou o vento
E será desfeita
A cena
Desse amor
Reciclado

22.3.09

O COMEÇO DO FIM


A escolha é sua, o caminho é nosso, a porta deverá ser aberta
O coração deverá ser aberto, a escolha é nossa, o caminho é seu
A escolha deverá ser aberta, o caminho deverá ser aberto, a porta é sua
O coração é nosso, a porta é nossa, o coração é nosso

* homenagem ao gênio criativo do artista Fábio Costaprado

27.2.09

PRETO E BRANCO


Adicionar imagem
É tempo de silêncio
E céu a passar devagar

É tempo de solidão
E sangue a escorrer lento

É tempo
E tempo morto

Nunca o silêncio foi tão alto!

Incômodo que grita
Se a lua surge
Em meus olhos

25.2.09

NA RUA



O amor está perdido
Nas sarjetas
Quietinho
Até que um olhar
Se lance a outro
Fulminante

Se há chuva
É como sol a confortar
Se há sol
É como chuva a refrescar

Se há Frida
Há meu coração a bailar

21.2.09

ÍRIS

Dentro do arco íris, a íris
Estática
No céu
Não arrisco um risco, nem traço
Abro a porta
A me perder de vista

17.2.09

PAZ



Abro-me as janelas
E tenho todos os cheiros
Verdes

Tempo de amadurecimento

O silêncio me convida a algazarra
A poeira me convida ao novo

Convido-me madeira
Na eira e na beira
Da palavra
Que evoco
No eco

O SINO

Toca o sino
O sino toca
Na toca do sim
Sim, toca
Uníssono
Acorda

Solto ao ar
Toca o céu
E a folhagem
Arranha
Alto

Toca o sino
E não me toca
A pele
Só a alma,
A sina,
Toca

Toca alto
E sim
Balança

E no balanço
Da canção
Embala-me
A lança

7.2.09

AHH!



Corre, escorre
Nas e pelas
Pernas
Torneadas

Tornozelos de louça e lágrimas
Leitosas!

Corre, percorre
Nus e pêlos
Seios
Suados

Sêmem de loucura e leite
Livre!

Entranha estranha
Estranha entranha

Estrago que trago
Se guardo
Se fumo

2.2.09

POICO


_ Adivinha quem vem para o jantar?

_ A vovó e o POICO!

_ Ah é? E sabe quem vai com você ao balé?

_ Quem?

_ O POICO!

_ Não! Não! Não!


Fragmentos de uma infância: construção

Tijolos lúdicos: açúcar na boca e bolhas de sabão


Onde o POICO pode ser porco

Pode ser palhaço ou violão


E a criança crescerá... POICO será casquinha da imaginação

27.1.09

FUMAÇA


Beatles tocava ao fundo
Na sala
Enquanto a sopa esfriava

Divagava devagar
E a sopa esfriava

_ Detesto sopa! Ferve meus pensamentos e pensar me torna enferma nesse inferno. Por isso há sopa em pratos de hospitais.

Beatles tocava ao fundo
DON'T LET ME DOWN!

19.12.08

PALAVRA



Palavra!
Pá que lavra
A letra
E a leva
Lava
Fogo e água

.



Eis minha homenagem
Póstuma:

Um incômodo degradê
Que paira feito poeira
Em madeira que pousa
Nos galhos quebradiços
E carimba o esquecimento

O descuido desleixado do papel amarelado
Nas letras tortas ignora alguém...
Como o corpo a rastejar
A tristeza contida

Depois...
Plante-os você
Dentro da gaveta
E terá o frescor abandonado
E o fosco avassalado dos tambores
Sem a música clássica

BANDA



Sempre haverá uma banda

Num lugar, coração, lembrança

Ou aparelho de som


Sempre haverá lugar para a banda apresentar

Coração para a banda encantar

Lembrança para viver

E som propagar


Sempre haverá uma banda

Sempre haverá uma

Sempre haverá

Sempre

18.12.08

O FOGÃO

Ela o pegava pelo estômago em invenções macarrônicas, mas não era só isso, ela o pegava pelo corpo todo. Era um típico casal que causava inveja tamanha sintonia, tanto em frequência boba quanto séria. Sim, eram incríveis! Era como se o amor não sobrasse pra mais ninguém.
Ah, o amor é espertalhão, não dá para acreditar no exagero, estamos sempre procurando chifre em cabeça de vaca, e nessa busca teimosa, o inevitável aconteceu.
A paixão durou quase dois anos. De repente, não mais que de repente, ele disse que queria ficar sozinho, que atingir o ápice da perfeição de um relacionamento trazia indagações. Eram dois e viviam como um. E foi assim, numa chuva primaveril, que ele bateu a porta e saiu.
Ela era o alicerce do casamento mas suas estruturas foram abaladas. O coração ficou flácido e ela chorou como criança sem doce. Como era inevitável, na mesma semana fizeram as pazes pela briga que não aconteceu. * parêntese: a intimidade revela monstros e causa discussões homéricas, e com eles não seria diferente. Não foi. Também brigavam.
E no primeiro novo encontro ele informou que sairia com um amigo para uma dessas festas 'tuntistun'. A convidou por educação já reclamando que não tinha hora para voltar pra casa, pois queria dançar.
Ela entendeu que a vida nem sempre é valsa. Entendeu que ele estava bonito demais, cheiroso demais, animado demais para quem só quer dançar. Ele dançou, ela foi para não voltar. Foi pra casa e colocou água para ferver.

11.12.08

SHE



Uma declaração de amor dura o tempo de uma música

O amor, na música, declara o tempo e dura

A música de amor não é dura, é tempo declarado

A declaração faz o tempo do amor... A música dura

Danço com você o tempo todo e a música dura mais que a declaração. É amor!



* Ilustração ‘roubada’ do talento de Mário Jr., o menino Gogh das artes plásticas. http://fotolog.com/mario_quemario

3.12.08

CHUVA


A chuva
Não pára
Nunca mais

(Que exclamação!)

Será que a chuva
Chora?

Choro sem fim
Do nunca mais

'Pára!'
Conclamam as janelas

E a chuva
Indiferente
Além molha



ÁGUA BENTA

A chuva
Bate seus tambores
Pros santos
Que não ouso conhecer

Não lavo a alma
Só o carro
E as pontas dos dedos

Ainda é dia
E o céu
Veste-se de cinza

Ela, dama de preto,
Adormece
Sob meu olhar

Me faz lembrar
Que, apesar,
Estamos na Primavera

* Guarda-chuva: arte de Michelle Cunha

A GELADEIRA


O cara desajeitado do apartamento 502 acordou mal humorado por causa da reforma do andar de cima. Praguejava que a insônia era um desgosto solitário e que era acentuada pela presença dos martelos e outros objetos que auxiliam barulho quando o assunto é quebra-quebra. Sabia que isso faria do seu dia um lugar indesejado, afinal, já não tinha vontade de sorrir em elevadores nem dar ‘bom dia’ a estranhos. Sim, estava certo de que choveria na sua cabeça.
Vestiu-se de preto e saiu sem pressa pela porta da frente. Decidiu descer pela escada e, assim, evitar grosserias a toa. Nesse semi-exercício matinal, dois andares abaixo, encontrou Fernanda, uma vizinha que acabava de mudar e se atrapalhava ao tentar manejar caixas pesadas. Parecia comédia romântica clichê, mas a verdade é que aconteceu aquele lance do olhar que se espalha pelo corpo e revela sintomas de uma paixão inesperada:

_ Bom, bom... Bom dia! Posso ajudá-la?
_ Sim, eu agradeço.

Passados 15 minutos não trocaram uma palavra, nem mesmo se apresentaram. Era como se, se conhecessem por toda uma vida, por aquela ou por qualquer outra que não caberia explicação. Mas quando as mãos se tocaram no empurra-empurra de ajeitar a geladeira, o inevitável:

_ Se quiser eu posso guardar suas coisas na geladeira lá de casa, digo, coisas de geladeira, até a sua gelar o suficiente.
_ Não sabia que tinha de esperar para colocar as coisas dentro.
_ Nem eu sabia que te esperaria 33 anos.

Nesse instante ele a tomou pelos braços e o beijo aconteceu. Naquele instante a geladeira dela nunca mais seria ligada.

... E não viveram felizes para sempre.

Viveram juntos muitos momentos felizes carregados de oscilação. Tiveram gêmeos e se mudaram para Belo Horizonte. De vez em quando enviam fotos e pedacinhos de eternidades em recheio de pão de queijo.

24.11.08

LUTO

O corpo já estava entregue
Ao nada que sacode as folhas
Alimento de moscas

Os olhos já não abriam
Falso silêncio
Hora da agonia
A espera da espera
Do sangue que não cessa

No meu canto
Canto em reza
Um lamento
De choro contido
E calado

Pela alma
Pela destreza roubada
Pela fenda do olhar
Que já não abria

INFINITO



Se essa
Fosse
A poesia da minha vida
Seria
Inacabada
Em si
Em mim
...
Porque o amanhã
Há de chegar

16.11.08

PALPITAÇÕES


As vezes
Não cabemos
Em nós

Nessa hora

Só sabemos
Correr
Para o espelho
E os nós
Desfazem-se em laços

CAMINHADA



E a vida é um isso e aquilo
De coisas e não-coisas


Metade do que fomos
Metade do que seremos


E o presente nasce na beira de uma poesia


Qualquer que possa ser lida
Relida
Qualquer que me vista
A vista de alma


Um punhado
De sal
Na boca
Outro
De açucar
Na boca


Que fala
E me leva
Leve
No pesado

4.11.08

HERESIA

Não tenho
Hora
Para acordar
Mas os sons
Não me repousam
As sementes
Sou tornado
Destruidor
Pelos dias
Pela alegria
Das pedras

DAS ESTRELAS (Aos poetas!)


Ah, o poeta!

Insano

Dono das verdades
Todas elas
Mesmo as inventadas

Explorador

Dos avessos
E das confusões
Sentimentais

Passa o chapéu

A espera
De um amor

Ou uma dor

Na desconfiança

Reta
De ser um
Ou siamês


Esse andarilho

Trovador

Troveja pétalas

E se descabela

Almeja o topo

E o topo
Se esconde

Dentro

MATÉRIA



Brasileiro
Carrega cruz
Nas costas
E no retrovisor
Do carro

A crença
Está no ser
Tanto quanto
Para o ter

Não há mais distinção
Pesa menos
O lado do coração

ANDARILHO



Ele vinha de longe
Passo a passo
Sob o sol
E sob a chuva

A sola do pé
Já estava em carne viva
E a ferida
Era chamada
Vida

Para onde ia
Se a estrada
Era sem fim?

1.10.08

MARESIA



Meu mar secou
Num súbito
Quando a noite caiu

Nenhuma estrela veio me contar
Eu dormia

Acordei com resquício
De sal
Na boca
E nos pêlos
Acordei com vento nos cabelos

Meu mar
Não era mais meu
Não era mais mar
Meu mar
Deixou de me amar

SERTUDO


O homem do sertão
Só quer ser

Do céu:
Dono dos horizontes
Ocasos

Das águas:
Domador das ondas
Vermelhas

Da terra:
Desbravador dos chãos
Longínquos

O homem do sertão
Só quer ser
Tão
Muito do pouco
Que lhe sobra

25.8.08

ANJO AZUL (P/ meu sobrinho-afilhado Rodrigo)


Seus olhos
De cristal
Reluzem
Um doce
Que saliva
A boca

Seus olhos
Ternos
Me abraçam
Num abismo
De algodão

O vento
Faz cócegas

Seus olhos
Dizem
Me dizem:

Sou o anjo azul
Do seu coração

23.8.08

MEUS GRITOS


Qualquer dor
Faz-se poesia
No meu nó
Da garganta

Qualquer poesia
Faz-se nó
Nessa dor
De garganta

Qualquer nó
Faz-se dor
Na poesia
Da garganta

Qualquer garganta
Traz em si
Um nó de dor
De poesia

22.8.08

SUSPIRO A TOA



Se é para falar de amor,
Eu penso no mar.
Se é mar,
É bravo como touro.
Visto vermelho
Só para cair
No seu terreno!

foto de VITOR SHALON
http://garatujando.blogs.sapo.pt/arquivo/994909.html

20.8.08

INFÂNCIA (para meus sobrinhos)



A criança
Passa por mim
E não para

Tem pressa
Nas brincadeiras

E se ela passa
Por mim

Eu paro
O tempo
Pra brincar
Com ela

14.8.08

UMA PEDRA



QUAL VENTO
ESPALHA PAPÉIS
NO MEU NORTE?

SOU FORTE
NO VIÉS
DO TEMPO

TENTO
CONTAR RÉIS
DA SORTE

E A MORTE
QUANDO EM MINHA TEZ:
SENTO

* Fotografia gentilmente cedida pelo jornalista José Rezende Jr., o ZÉ dos Sertões das palavras.
http://www.joserezendejr.jor.br/

27.7.08

FÔLEGO


Só sei
Da poesia
Que invento
Em palavras
Acordadas
Num instinto
Feroz
De brado
De mulher
De homem
De criança
De louco:
Fragmentos
Da santa
Que sou
Não sou
Na confusão
De rostos
E passos
Nas galerias
De gente
E no eco
Da solidão
Azul
Do céu
Sobre minha cabeça
Que é roldana
De pensamento
E luz
Que apago
No ponto
Final

* Tela da amiga criativa Michelle Cunha:
http://www.flickr.com/photos/michellecunha

16.7.08

REFLEXO



Espio-me
Por uma fresta
Quase inércia
Nesse movimento
Anti-festa

Recolho-me
Em extrema solidão
Quase mar
Nesse ato
Anti-pão

Pulso-me
No ar
Quase espasmo
Nesse instante
Anti-par

Velo-me
Lúcida
Quase dança
Nesse intervalo
Anti-fúria

...

E o filme mudo da televisão desligada
Transmite o orgasmo estático

* Imagem = furto consentido da artista Michelle Cunha
http://www.flickr.com/photos/michellecunha

CARINHO



Tudo o que eu quero
Agora
É o afago de um cão
Numa grama
Verde e farta
De aventuras

Eu e o cão
O cão e eu

(Esse momento)
Basta


7.7.08

ESPELHO OPACO


Me vejo outra
Na sombra
Ao chão

Gigante
Na precisão
Do espaço
Horizontal

A outra
Me vê
Pelos poros
Do vão

Inteira
Somos duas
Aos pedaços
De aproximação
Frontal

21.6.08

ACORDO


Travaram, por um dia, o pacto de silêncio corporal: nenhuma palavra, nenhum olhar, nenhum sorriso. Só o grito abafado da distância que relutava em ser necessária nos dias frios de outono, nos dias de faxina quando se busca aquela individualidade que ficou no andar de baixo. Se a vida fosse filme, nesse instante, perceberíamos ao abrir da lente, um só cenário (esse que derruba a teoria do afastamento). Mas não há medida nem traçado para o espaço de um coração a outro, só é visível o buraco: um ponto, uma pinta negra pintando a pele, um incômodo. Mentira.

Arte do talentoso Mário Jr.
http://fotolog.com/mario_quemario

18.6.08

NO ESCURO


A maré surgiu
Entre montanhas

Qual será o seu gosto
Entre pernas?

O cheiro da sua canção impregna
Entre paredes
O pretume dos seus cabelos
Entreabertos

Quero tocar-lhe a alma sem fim
E sem começo

Só mais um sim
* parceria com Marina Marcondes

26.5.08

PALAVRAS 3 (para Drummond)


Nossa língua
Nossa pátria

Se a pátria
É vasta

É espelho
Da língua

É escola
Da vida

Do céu:
Quadrado
Do teto
E redondo
Das estrelas

PALAVRAS 2 (para Manuel Bandeira)


Ainda beijo, ainda falo
Falo palavras que invento
Invento uma explicação
Explicação que traduza o amor
Amor do dia-a-dia
Dia de 'teadorar'

PALAVRAS 1 (para Cecília Meireles)


A alma
Sabe mais
Que palavras

Uma só alma
Para tantas
Palavras

Ditas
Escritas
Esquecidas
Celebradas

Um dicionário
Por uma alma?

Atire
A 1ª palavra
Quem discordar

24.5.08

FUMAÇA AZUL


Lembrança
É neblina
Azul
Que desliza
Nos olhos

Surge
Sem presságio
Surge
Apenas

É sonho
Acordado
É filme
Vivido

É acontecimento
Que vai embora
Sem dar adeus

Ilstração do querido artista e arteiro Mário Jr. (link nos 'companheiros' ao lado)

LETRA S


O silêncio
Salva o sufoco
E sedimenta a saudade

A sorte
Sara o suor
E sorteia o samba

Sentimentos soluçam

A sedução é sortida
E o sonho é sincero

A simplicidade
Sangra no sensível
Eu sinto o sol
A sombra sai
O sino soa
E o 'S'
Silencia meu som

22.5.08

IRONIA


Um corpo
Atrás das grades
Pede socorro:
_ Socorro,
Venha logo mulher!
Meu coração
Não é passarinho!

19.5.08

QUARTO DO MUNDO



O quarto
Era o mundo
Que escolhera
Numa lista
De poucos
Lugares

O quarto
Era seu mundo
Em tons
Apagados

O quarto
A escolhera
Numa lista
De muitas
Pessoas

Ela
Era o mundo
Colorido
Dele

Imagem: http://www.flickr.com/photos/michellecunha

DANÇA VERMELHA


O som
Do outono
Cobria os ares
Da dança

Era como
Se condensassem
As paredes

"Nossa música"
Pensavam

E se entregavam
Acordados
Ao sonho
Quente
Daquele som

* arte na tela da companheira Michelle Cunha : http://www.flickr.com/photos/michellecunha

18.5.08

RECADO


Às 21h
O telefone
Vai tocar
O seu

Sou eu
A dizer
Oi
A dar
Sinal
Na linha

Talvez
Um mundo
Interfira

Talvez
Um sorriso
Aconteça

Talvez
O silêncio
Aja

Talvez
Um talvez
Nasça

TEATRAL (Para Camila e Renato)



De repente, o palco!
Mundos e mundos
Dentro dos meus olhos

A boca seca
O coração aperta

De repente, o palco!
Mundos e mundos
Dentro dos meus olhos

Palcos e palcos
Dentro dos seus corpos

PESSOAL


"Sentir? Sinta quem lê!"
Escrevo
Sinto ao quadrado
Reverbero entrelinhas
O que seria de mim
Sem caligrafia?

Pensar? Pense quem lê!
Na ponta
Da caneta
Reflito mundos

Os meus
Os seus
Os vossos
O que seria de mim
Sem esforços?

Amar? Ame quem lê!
Por inteiro
Página por página
Desfolho você
O que seria de mim
Sem prazer?

Sinto
Penso
Amo
Ao escrever

ARTE


Só a arte
Revela
Desvela
Vela

Chama
Sem fim
Acha
Crepitante
No mim
No sou

Do segredo:
Testemunho
Do mistério:
Confidência

Só ela
Arte
Me revela
Ao lê-la
Escrevê-la

12.5.08

MÃE (para a minha)


Mãe
Bateu asas
Sobre flores

Mãe
Espalhou
amores

Com garras
Com armas

Brancas

Mãe voou
No meu céu
Mãe é borboleta
Colorida

Mãe
É mulher
Com mais
Vida

Ilustração da artista/amiga Michelle Cunha: http://www.flickr.com/photos/michellecunha

8.5.08

SINAIS


A felicidade
Tem peso
Na sua leveza

Ela espalha-se
Com a brisa
Feito algodão

Ela deixa marcas
Feito furacão

"Dejaría en este libro toda mi alma" - Federico Garcia Lorca

Fotografia da querida companheira Karla M. Watkins: http://www.flickr.com/photos/karlamwatkins

7.5.08

BAILARINA (Para amiga-atriz Camila Almeida)


A bailarina
Escorre
Pela testa
Uma gota
De suor

Finalmente
Conquista
A sapatilha
De ponta

E me conta:
O equilíbrio
Vem de dentro
Vem do fundo

Profundo
Onde bate
O coração

Diz:
As pontas
Dos pés
São o início
Dos olhos
Para outro horizonte

De cá
Vejo
A bailarina
Sobre as nuvens

Ela acena
Rodopia
Pelos
Montes

Ilustração do ator-amado-irmão Renato Livera

FELINA (Para Lídia Benjamim)


A gata
Se esquiva
Por charme

Também tem querer

Seus olhos de fenda
Abrem-se a poucos
Abrem-se a você

A gata
Se enrosca

Nas suas meias
De lã


Lã e leite
Leite e mel


A gata
Guarda
Os mistérios
Da noite

brincadeira com suas palavras: http://lidiabenjamim.blogspot.com/

4.5.08

7ª ARTE (frames "Ponte do Tédio")


video
Chico: _ Ela faz cinema... Ela é a tal!

Anna: _ Ela surge na tela
Bela
A soltar
Feras
Do fundo do mar

Ela é minha
Quando se aninha
Quando se "anninha"
Na minha

Ela é demais
E tanto faz
Se é onda
Ou cais

30.4.08

SOZINHA


Sozinha
Num quarto
De atmosfera
Blues

Sozinha
No corpo
Da guitarra
Que grita
Sozinha

Sozinha
No embalo
Da noite

Sozinha
Com uma canção
De Bob Dylan
Que contorna
As estrelas
Sozinha

Sozinha
A cair
No infinito
Seria o abismo?

Sozinha
A voar
No delírio
Seria martírio?

A saliva mata a sede sozinha

29.4.08

SOBREVIVENTE


O cavaco
Chora
Na calçada

O sol
Desenha a sombra
Que ampara
O corpo

O fidalgo
Luta
Com seu próprio
Luto

O chapéu
Vazio
Aguarda

Aguarda
Aguarda
Aguarda

Fotografia hispânica da fotógrafa amiga Karla Watkins, da série "K por K".

http://www.flickr.com/photos/karlamwatkins/

28.4.08

ENCRUZILHADA


Quanto
Já percorri?

Qual a cor do asfalto
Que cruzará
Meus caminhos?

Ao fim
De cada passo
Um par de chinelo
A recarregar
Baterias

Não estou
De passagem
Trouxe
Bagagem

Tela da artista plástica Michelle Cunha: www.flickr.com/michellecunha

TERTÚLIA


Tem gente
Que alegra
O dia

O chá
Não é apenas chá


Tem gente
Que merece
Ser feriado
No calendário

Tela da contemporânea artística Michelle Cunha: www.flickr.com/michellecunha

TRADUÇÃO DE OUTONO


O outono
Bate à janela:

_ Sou instável
Como o coração
Das mulheres

Meu céu
Tem vontades
Próprias
Acorda com sol
E dorme com chuva

Meus galhos
Nus
Sacodem ao vento
Mesmo se crispam
No calor

No outono
É uma mulher

Que dá outro tom


imagem da querida amiga e artista plástica Michelle Cunha
www.flickr.com/michellecunha

22.4.08

PECADO


O pecado mora acima
Com suas roupas
Íntimas
Dependuradas após o suor

Santo ato
De desnudar
Os corpos
A alma
As veias
Que pulam
Das tetas

Quem mordeu a maçã?
Bendita hora
De herança
Semeada

A flor
Continuará
Intacta
Sob a luz
Do sol

Fechem
Portas
Pernas
Grades
Glandes
Sacadas
Sacanagens

Fechem!

Pois Bocas e Botigas
Desejam descansar
Sobre os azulejos

Fotografia de Karla M. Watkins http://www.flickr.com/photos/karlamwatkins/
Da parceria K por K

15.4.08

MY BLUEBERRY NIGHTS



Na boca
Sobressai
O gosto do beijo
Roubado
Na sutileza
De uma noite
Azul

Feche os olhos
Abra os olhos
Quantas imagens
No piscar?

Os quilômetros
Estão para o ano
Assim como
A fruta
Está para a pausa

O copo
Sempre cheio
(De música)

O coração
Sempre vazio
(De certeza)

Doce espera
Que agoniza
A sorte
Marcada

13.4.08

OFERENDA


Oferenda dupla:

Aos céus,
Meus louvores
Minhas esperanças
Minhas vontades
Meus suores...

Minhas possíveis mentiras!

Ao público
Curioso,
Toda minha escatologia
Sincera ofensa
Que brilha ao sol

Não abaixo a cabeça
Não me curvo

Sou apenas
Curvas
Da cabeça
Para baixo

"K por K" - parceria com Karla Watkins: www.flickr.com/photos/karlamwatkins

O ENCONTRO


Eles caminham

Lado a lado

Numa solitária

Corrida

De bengalas


A vida se foi

Aonde ela vai?


Eles caminham

O caminho

Contrário

Tranqüilos

Sem temer

O esmagamento


Ninguém

A acompanhar

Com os olhos

Atentos

O cortejo


Nenhuma

Lâmpada

Acesa


Só a sépia

Da sombra

Da penumbra

Só o concreto

Do rastro

Los ojos de Karla M. Watkins: www.flickr.com/photos/karlamwatkins

3.4.08

SONHO


A rua vazia
Indica
O vazio
Do peito
Das horas
Das urgências


Ela não desce dos saltos

O clarão do asfalto
Indica
O rumo
Dos passos
Lentos
Da espera
Inesperada

Ela quase baila
Estática

Ela passará
Por meus olhos
Como um sonho
Plástico
De Dali

Eu
Manterei-me

Inspiração fotográfica da companheira Karla M. Watkins em seus olhares sobre-sob Barcelona

http://www.flickr.com/photos/karlamwatkins/

29.3.08

?


Seria eu
Cárcere
De minhas palavras
Se nelas
Me faço
Verdade
Até nas mentiras
Que invento?

Seria eu
Cárcere
Dessas sílabas
Que meu corpo
Exala
Até quando durmo?

Seria eu
Cárcere
Perigosa
Se eu mesma
Construo
Meus labirintos
Poéticos
E faço questão
De me perder
Nas surpresas
Diárias
Do espelho?


Eu
Que até amanhã
Sou Anna do Chico
(do Vinícius, da Marina, dos amigos...)
E cultivarei
No sensível
O farfallar
Da valsa
Da borboleta
Que um dia
Vi nos cílios
De um menino
Que descobria
O mundo

Eu
Que carrego
Os mundos
Dos mundos
Dos mundos
Dos mundos
Que me carregam

Eu
Que não suporto
As dores
Da noite
Muito menos
As do clarão
Do dia

Eu
Que me aprisiono
No silêncio
Das quatro paredes
Que meu grito
Evoca

Eu
Que faço chuva
No seu sertão
Para ser
Tão minha

ABISMO


É como

Se uma navalha

Cortasse

Lentamente

Com sua lâmina

Cega

É como

Se essa dor

Fosse inevitável

Devido aos punhos

Acorrentados

É como

Aos cataclismos

Que espalham

Sentimentos

pelos ares

ENTRA E SAI


Ela oscila:

Me veste

O corpo

Me despe

A alma

Me despe

O corpo

Me veste

A alma

Ela é precisa:

Se veste

Com meu corpo

Se despe

Para minha alma

Me veste

Com seu corpo

Me despe

Com sua alma




22.3.08

AUTOFICÇÃO


Sou de domínio público

Nas frases que escrevo

Diante as margens

De meus rios


Lavro meus acontecimentos


Sou dos palcos que invento

Atuo na boca de cena

As cenas

De minhas horas


Sou eu mesma e o avesso


Sou da efemeridade

Nas paixões históricas

Diante as camas

De meus lençóis


Marco meus momentos


Sou da farsa transparente

O coringa mascarado


* criado especialmente para http://mundopsiconautico.arteblog.com.br/3/

8.3.08

MINHA ESCRITA


Minha poesia
Ultrapassa
Minhas Geografias
Extravasa
Minhas fronteiras
Liberta
Meus limites

Só que ela
Tem chaves
Pois sou feita
De portas

Estou inacabada
Dentro
De minha
Perfeição

* com a inspiração ilustrativa de Mário Jr.
http://www.fotolog.com/mario_quemario

7.3.08

O CÉU QUE ME PROTEGE


A angústia
De escrever
Tatua minha pele

Pelo suor
Retido
Nos neurônios,
Pelo soro
Que surpreende
Os olhos,
Pela disritmia
Cardíaca...

A angústia
Quebra
Minha cabeça
E cola
Minha Alma

* ilustração do incrível companheiro artístico Mário Jr.
http://www.fotolog.com/mario_quemario

VIDA AOS PEDAÇOS


Pus-me
A pensar
Na vida
Como um todo
E em suas partes
Como vida

Sem conclusões
Cheguei
A um lugar:

Minha cama
Na hora
De dormir

* outra polaroid do querido artista Mário Jr.
http://www.fotolog.com/mario_quemario

PERCE