25.12.07

UM PEDAÇO DO NATAL



A musicalidade do ambiente estalava estranheza, não reclamava por dois motivos: no estômago sensação de mal estar e na cabeça pensamentos tristes da imagem da caiçara.

O relógio marcava 9h da noite, sabia que em vários pontos não tão distantes, muita gente sorria e falava alto entre comes e bebes; abraços e beijos entre presentes e luzes; alegrias e mágoas entre olhares e a escuridão. Era natal. No momento a data não possuía tanta representatividade, exceto pelo silêncio que incomodava seus ouvidos. O meio sorriso indicava que parecia protagonista de algum romance de Noll.

Com esforço alcançou o copo d'água que jazia sobre a bancada, o molhado dos lábios trazia alívio. Tentava se distrair com palavras, mas a caiçara _ mulher que escolhera como sua _ há um tempo mergulhava no rio turvo, pesado demais para suas braçadas. Nos instantes de dor desejava ser escafandrista para explorar os limites das tormentas e encontrar a chave do tesouro da salvação, amém! Quantas pessoas ainda rezariam pelo homem crucificado? Quantas badaladas soariam pelas praças chuvosas? Só sabia do trem que se afiava nos trilhos.

Abriu um pedaço da janela para reconhecer a algazarra festiva vindo de fora. Seus olhos não atingiram o "zum zum zum", percebeu apenas duas pessoas solitárias, ausentes de qualquer ceia, uma mulher sentada num sofá, provavelmente assistindo televisão, e um homem gordo que baforava um cigarro na sacada. Nada de atração no anoitecer alheio.

Bebeu outro gole da água e discou um número que sabia de cor, a caiçara não atendia! Isso emputecia mais por dentro, no aperto do coração, do que na ira esbravajante da revolta. No fundo insistia em lutar contra esse comodismo de estar a mercê das possibilidades dela. Quando poderia conduzir o bolero? E quando, enfim, as linhas se encontravam, a mudez pintava sua boca. Cada vez mais sua forma de expressão era a escrita. Mas o que de tão urgente precisava dizer a morena que preenchia seus intervalos? Declaração das cartas do tarô: "É melhor deixar que a acha queime a cortá-la".

As cenas dissiparam-se em sua mente, o que deveria ser pensamento certo, linha reta do labirinto, se contorceu como galho ressequido. Pensou na outra, na que não havia na realidade, era só o que ficou para trás arrastando-se para tocar sua mão, para que a face pálida rangesse os dentes num ato de aflição. Quase sentiu o gosto do beijo que se perdeu no abismo. Seria um eco?

Já não esperava e a caiçara apareceu trazendo em mãos uma garrafa de champagne. Como era bom abraçar aquele corpo! O olhar vazio ainda enfeitava seu rosto, temia um efeito dominó que afastasse a distância dos seus pés. Tanto fogo louco no momento era ternura murcha. As discussões eram mais freqüentes e os motivos mais banais. Só queria que ela não fosse embora tão rápido. Saber que seu corpo estava, mesmo que inerte, sobre a cama, já era confortante.

O dia amanheceu bonito e a conduziu ao caminho de volta. A lua ainda estava lá! Acordou, mas não recordou se dormiu. O copo d'água nunca esvaziava, sempre a vigiar seus movimentos. Deu outro gole e nenhum galo cantou.


16.12.07

UMA ARQUITETURA


Se pisco
Perco segundos
E as obras
Continuarão inacabadas

Se mantenho a vista ereta
Ganho um calendário
E as construções
Continuarão intactas

O que depende de mim?

UM CHAMADO


Ouço a voz do mar
Que vai e vem
Vai e vem
_ Me
carrega, peço!

Me abraça com seu sal
Que salivo ao sol

Solitária embarcação
Que ancora ao sol
Solitário coração
Que saúda a multidão

12.12.07

GATOGRAFIA 4 (série 2001)


A gatinha lambe a garrafa de gatorade
No rótulo gasto está escrito "leite"

A gastronomia felina

Exibe ossos de peixe

E rações coloridas


Um gato some e alguém chora


Na esquina

Um senhor gordo

Devora um churrasquinho

GATOGRAFIA 3


Meu peito faz barulho de gato:
Bronquite

Os gatos falam e dançam:
Cinema

Garfield, Hello Kitty, Manda Chuva:
Infância

Homens bonitos:
Gatos

De cima do muro
O gato preto
Espia os rabiscos
Que darei a você

GATOGRAFIA 2


Não sou gato
Gosto de gato


Gatos no plural

São desenhos animados


Arranham meu rosto

E as cicatrizes

Sangram a noite toda

Não sou gato

Mas no fundo

Meu poço acolhe gatos


Pardos, rajados, claros
Tricolores como os times


Um joga o novelo pro outro

E... MIAU!


Tenho 8 gatos no quintal

GATOGRAFIA 1


Tranco-me no quarto
E afugento os miados famintos
Eco lá fora

Tenho 7 vidas?
Minhas garras
rasgarão o peito da gata?

Meus olhos brilham fenda no escuro?

Interrogações flutuam no espaço

E meu corpo sente o cansaço

Enquanto os sonhos voam pela janela
Arrepio com uma gota de água fria

22.11.07

UMA PRISÃO


Hoje rezei
Aprisionei os pássaros de origami, depois
Lembrei:
- Lembramos?
Tranquei os cofres
Das lembranças como se fossem perigosas,
Engoli a chave:


- Tive coragem.

E a ternura será ternura sempre

UM BRANCO



Por aqui não há neve
Os flocos voam longe
O branco me cega
Entre os pedaços inteiros
Mais verdes das mulheres

_ As palavras num parto mortal
Abrem os olhos

Cicatrizes desaparecem
Das nascentes dos poros
E vão, uma a uma
Rodar no liquidificador
Numa saudação tardia
De quem permanece
Assada


A espera da neve
Dos flocos
Do branco
Do algodão
Que acolhe a semente
Antes da vida

20.11.07

UMA FOGUEIRA


O amor dobrou a esquina
Num dia cinza


Não me preocupei
Por estar entretida
Com o mecanismo do guarda-chuva

(que não me guardou das dores
por ser turvo)


Se abriu com a chuva
Me inundei em água salgada
Secou ao sol

Tive a rosa despetalada


Ele elegante
Eu elétrica


O amor não deixou pegadas
Os dias seguiram nublados
o me preocupei
Porque estava de óculos escuro
Fechando os olhos
Para ver a lua
Ela não percebeu minha anti-presença
(por brigar com o dragão)


Ela redonda
Eu quadrada


O amor, a chuva, eu
Fomos cúmplices

Do namoro dos astros
No rastro que se fez reto


Só uma gota de perfume


Ele diluido em água
Eu crepitando em fogo

15.11.07

CONVULSÃO GABOANNA

É só uma foto de jornal, mas a ternura do olhar por detrás das lentes grossas me ensina que a vida vale a pena mesmo se inventada, e nesse "mesmo" injeto adjetivos maiores que só um grande contador de histórias e colecionador de imagens é capaz de traduzir em palavras narradas. (E quando tento expor a emoção, Gonzaguinha canta no rádio: Eu acredito é na rapaziada que segue em frente e segura o rojão) O bigode já branco dos 80 anos representa um carinho a mais na hora do beijo, é assim, de maneira simples, que esse "avô" me pega a mão e me conduz por universos mirabolantes. Nem me preocupo em enxugar as lágrimas se sou acometida por uma sensibilidade inexplicável. Será que não se explica? Dentre tantas cidades e personagens míticos vôo feliz e agradeço: Muito obrigada por meus, sempre próximos, cem anos de solidão compartilhada!


MENTIRINHA


Nenhum espaço é vão
Se é vão não é vazio
Se é vazio não é oco
Se é oco não é raso
Se é raso não é fundo...

"acabou-se o mundo"

14.11.07

INACABADO


O calor me fez Dali
E eu no meu canto cá
Canto mi
Mise-en-scène de um ato
Atormentado

10.11.07

UMA NOITE DE NOVEMBRO


Mais uma noite de Novembro

Ouço o silêncio Que evoca o escuro
Bebo um copo d'água
E a cada gole Uma recordação Vestida de carnaval

Mais uma paisagem de Novembro

Ouça a música Que combina com chuva
Bebo o sereno
E a cada vapor Um companheiro vestido de luto

Mais uma Anna que sou
Ouço minha voz
Bebo doses de estrelas E me visto de nudez

29.10.07

UMA CONCLUSÃO


A janela semi aberta
Clareia

Um rastro
de luz Sobre o caderno


O caderno meio aberto
Revela

Um pedaço
de mim Sobre a cama

A cama ee abre toda
Abraça

Me abraça
de cobertas
Descobertas

27.10.07

UMA METAMORFOSE


Quero qualquer palavra
Que me liberte
Daquilo que não fui
Que me faça ser
O que sou
Dentro de você
Que me permita ver
No escuro dos seus olhos
Que me tenha clara
Que me aprisione
No que serei
E que não seja
O que não sou
Fora de mim
E me cegue
Para ver o sol
Dos meus olhos
Que me tenha lua

Ilustração do querido companheiro de surtos artísticos Mário Jr.
http://www.fotolog.com/mario_quemario

23.10.07

UMA SOLIDÃO



Não moro

Apenas coexisto
Em alguns pontos
Da cidade

Que calada

Acompanha
O desfile invisível
Dos arlequins

De um pedaço
Iluminado
Do edifício

Bocejo
As nuvens
Que querem chorar
A falta do sol

* Fotografia: furto consentido de http://www1.fotolog.com/corsel by Júlio Veríssimo!




18.10.07

UMA BRIGUINHA


De repente a coisa desanda
Numa noite de calor
É mau!
Proponho as pazes
Enquanto suo
Não foi uma boa!
Você fica no silêncio
Eu abro a janela (quero o vento)
Algo quebrou!
Boa noite, me dispo, cadê você?

* ilustração do ator "multimídia" Renato Borges (retoborges.blogspot.com)

UM COMEÇO DO FIM


Quando escrevo, suicido
Me rasgo,sangro, esperneio
No limite inexato
Das possibilidades
Que invento
Minto
Com elegante sinceridade
Eu mesma
Desenho um sorriso nos lábios
Repito:
Quando escrevo, minto
Com elegante sinceridade
Invento
Possibilidades exatas
Dentro de um limite, o meu
Me abro, transbordo, grito
Eu mesma
Desenho nos olhos paisagens
De novo: suicido.

* Ilustração do "amadoamigoirmão" ou ator dos meus palcos:
Renato Borges (retoborges.blogspot.com)

9.10.07

UMA CHUVA FINA


Era noite
E o céu ostentava
Um azul
De aparência clara

Chovia

Não havia traçado
Que separasse
Uma coisa da outra

Havia profundidade

No ar não pairavam estrelas
E elas traziam você.

Era dia
E eu não percebia

Ficava presa lá atrás
Concentrada no azul-cinza
Que parecia outro

E quando as estrelas surgiam
Eu já adormecia.


UMA ESTRELA


Não sei onde começo
Tampouco onde termino

Sou apenas
Uma estrela
Equidistante
Dos sonhos

Minha escuridão
Me acende
Em precipícios

Tenho minha trilha
Sonora

Ela se propaga
No eco
Da caverna:
Meu esconderijo

Sou animal
Acuado
No próprio veneno
Que é antídoto

26.9.07

UM AVESSO


* resposta ao senhor Mateus Dounis


Não sei que assado
De perto

Não pode ainda revelar

E assim acolher

Mas eu posso Fugir
Do que me "inerta"
Ou tudo atrai


E perco aprisiono

"A sensibilidade
_ graça da vida_"

E minhas coragens guardo

Percebi que

O imperfeito
E ainda o erro
Sim, são conceitos


Que nada
Se evapora
Se constroi


"Buscando sentido à esperança"


E que ainda no menos perfeito

Feito de pura plástica
No olhar hipnotiza

Por se entregar ao feio


23.8.07

DUAS CURIOSIDADES


Por que as unhas crescem?

Mecanismo de defesa ou
Artifício de ataque?
Garras ou ornamentos?
Extensão dos dedos?

Por que os cabelos crescem?

Escudo de esconderijo ou
Manifestação de estilo?
Cordas ou armas?
Extensão das idéias?


Um Corpo
Na Atmosfera
Hoje Baila
Amanhã Espanta
Sol Lua:
Órbita
Solitária


14.8.07

UM PSEUDO SUICIDA


Observo um suicida na janela de um hotel

Na verdade nada indica
Tratar-se de um suicida
Mas quero tê-lo assim

Imagino o salto:
Vôo de braços abertos
Vento ao peito
Voz cortada pelo batimento cardíaco

Imagino a queda:
Sopro agudo na calçada
Sangue coagulando o cimento
Superfície marcada

De repente ele abandona a janela:
Um programa na tv
Uma água no rosto
Um corpo na cama

A imagem da morte
É borrada como lágrima sobre a tinta da caneta

Ele apaga a luz
Eu apago uma história a ser contada

7.8.07

UM DUO


Sou heroína

Disfarço
Para ser invisível
E poder entrar
Nos seus territórios

Quantos limites
Entre o céu e a terra?

Eu na surdina
A ouvir
Passos em falso


Sou mortal

Encaro
Para ser notada
E poder sair
Dos seus esconderijos

Quantos horizontes
Entre o lá e o aqui?

Eu sob a luz
A ver
Estrondos de trovão.

UNS MEDOS


Tenho alguns medos
E eles estão guardados
Dentro de pacotes coloridos

Não os abro
Mas os reencontro
No fundo dos olhos
Meus olhos

Eles, os medos,
São invenções
Da minha realidade

Os alimento
Na calada da noite
Na solidão
Dos travesseiros
Que amparam
Meus sonhos

E eles, os sonhos,
São mentiras
Que faço do pó:
Castelos.

31.7.07

UM FALSO BRANCO


Queria uma metáfora que traduzisse uma mudança repentina, que simbolizasse aquilo que surge como chuva num dia de sol. Pensou no fósforo que é aceso sem saber se será queimado ou se uma corrente fria mudará seu destino. Pensou no bolo que sai do forno sem saber em quantos pedaços será cortado. Saber! Objetos inanimados sabem algo? A velocidade tinha muitos tempos, não era precisa. Um mês poderia parecer a eternidade ou a noção que temos dela. O controle está num painel imaginário que acionamos de luzes e fingimos ir e vir. Alguns, de fato, somos livres. Percorremos caminhos estreitos como se usássemos patins, com a sensação de chegar antes do combinado. E se isso é sentido com percepção, é merecido ganhar uma medalha, às vezes é dolorosamente importante despertar a consciência de que movemos, ou percebemos que o chão está em movimento.

Queria apenas um pedaço de papel em branco onde pudesse deslizar a grafite e refletir sobre os mundos do mundo. Colecionava os pedaços como álbum de figurinhas, como se protagonizasse uma aventura inesquecível. Adorava existir, mesmo se significasse tropeçar em pedras invisíveis. “Viver ultrapassa qualquer entendimento”. Perder aquilo que está em mãos pode ser uma celebrada sorte. Cultivar paciência e ter coragem de seguir adiante é um risco cirúrgico, e se alcançado com maestria, é um sorriso que nasce na escuridão.

Ficou observando o relógio digital que marcava 19h28, somava números, 1 + 9 = 10 = 1 + 0 = 1. 2 + 8 = 10 = 1 + 0 = 1. 1 = 1 ou 1 + 1 = 2? Era duas, duas metades de uma construção inacabada. Sempre fugia da vistoria das peças mais delicadas. Era e não era.

Queria uma metáfora e um pedaço do que era observado. Pensava e colecionava raciocínios. A terra girava no escuro e nesses momentos sabia que era e não era.

26.7.07

UM MUNDO DE OLHAR


Meu mundo
Subiu no telhado
Para contar as estrelas

Uma, duas, três...
Elas eram tantas
Para os poucos dedos dele

E ele não sucumbiu
Pegou emprestado
Os dedos do mundo
Dos mundos que lia

E foi tanto brilho
Que Borges e Sabato
Perderam os olhos
Para ser coração

Só imaginação

Neste instante
Os cegos
Entenderam as estrelas

10.7.07

UMA XÍCARA


A xícara de café era branca. Óbvia. Era preciso cautela no manuseio devido a temperatura. Nunca era quente. Ela tinha o hábito estranho de colocar pedras de gelo para fabricar fumaça. Tsssss! Gostava de sons, e a madrugada provocava batuques raros, por que se manter lúcidos após movimentos de perdição? Ele fazia uma cara de bobo entre as lembranças que permeavam aquele quarto, aquela vida, aquela barba que crescia toda semana... Não tinha pressa, colecionava selos como tatuagens e cortava os cachos num intuito de se doar com mais afinco a arte que lhe escolheu. Quem escolhe quem? Não gostava de futebol nem de louras; não dirigia veloz nem brincava carnaval; não bebia muita cerveja nem pouca água; não era quem foi quando nasceu nem sabia quem era quando amava. Era um quebra-cabeça composto de mosaicos fotográficos. Era um milhão em um! E agora era um envelope sobre algumas escrivaninhas... Era pardo e colorido... Era uma pintura sobre a pele da menina que entrava nos seus poros.


Ilustração inspiradora de Mário Jr.

9.7.07

UM PEDIDO



Peço licença
À minha vida
Para observá-la
De longe

Peço passagem
Aos transeuntes
Para vê-la
De perto

Peço um instante
De atenção
Para olhá-la
Ao léu

Ao vento
De curvas
Para mirá-la
Peço

1.7.07

DORMI AO SOM DE BEATLES


I ONCE HAD A GIRL, OR SHOULD I SAY, SHE ONCE HAD ME
Isso faz tanto tempo, não havia rugas em meu rosto, as nuvens eram outras e ela, a garota, era meu par nas festas e corridas da vida. Respirávamos aventuras nos cabelos soltos ao vento, nas calças coloridas e no violão. E se alguém chorava bastava dar as mãos e fechar os olhos. Sabíamos olhar além das estrelas, mas nosso maior prazer era deitar ao sol em cima dos telhados para esquentar os pés e as almas.
SHE ASKED ME TO STAY AND SHE TOLD ME TO SIT ANYWHERE
Eu não pensava noutra escolha, só queria permanecer ao seu lado mesmo quando faltava assunto. Nessas horas olhávamos de verdade no azul dos olhos, era como se ouvíssemos a mesma música flutuante, a gente dançava até cair de novo.
WE TALKED UNTIL TWO AND THEN SHE SAID, IT'S TIME FOR BED
Eu coçava a cabeça e não sabia o que fazer.
Eu abaixava a cabeça e deixava a garota ir. Só sobrava o vulto da saia. Ao longe ainda escutava a nossa canção. Fadas entravam pela janela miúda do banheiro e eu sonhava, ou acreditava nisso.
AND WHEN I AWOKE, I WAS ALONE, THIS BIRD HAD FLOWN
É, tive uma garota e não me recordo seu nome. Lembro dos cabelos compridos e castanhos, da voz rouca, da excitação da juventude combatendo as responsabilidades que nasciam. Lembro que acordava com gargalhada ao ouvido, lembro do carro que passeávamos...
SO I LIT A FIRE, ISN'T IT GOOD
Tudo a minha volta se apagou e crepitei em noite.

* ilustração do criativo companheiro de surtos poéticos Mário Jr.
http://www.fotolog.com/mario_quemario

19.6.07

UM TEMPO


Não dou atenção ao tempo
Mesmo assim
Ele não cansa
De me olhar

Seus olhos são negros
Nem rasos
Nem profundos

Ele permite
Que eu mude
A direção
Da mira

Ele me entende
Em silêncio
E eu falo
Sozinha

Loucura?

Tenho-o
Sob
Minha guarda

E nas madrugadas
Ele guarda
Meus sonhos
E tormentos

PALAVRAS DE UMA SEGUNDA DE CÉU AZUL CLARO


Ouço Caetano
Será que ele ouve meu silêncio?
Troca injusta
De vida
De dor e mel e dor e mel

Ouço Caetano
Mas é só momento
Nada além do mar
Que não me banha
Nada além dos recifes

(Só uma sereia morta)

Ouço Caetano
E me acalmo
Longe dos seus braços
Perto do que é em mim

Ouço Caetano
Ele profere muitas palavras
Sílabas
Acentos
Vírgulas

Ouço Caetano
Numa segunda
De trânsito furioso
E o céu está azul
Claro

Ouço Caetano
E é segunda
Mas você
É a primeira
A tocar encantos
Me tocar

Ouço Caetano
E já quero desligar

Ouço Caetano
Ouço

13.6.07

INVISIBILIDADE INVISÍVEL

Meus olhos Possuem um campo periférico Alma de camada fina
Filtro imperceptível

O que julgo belo, imagético Ultrapassa a visão Para incorporar
A essência de minha lapidação

Atração!

Há o que foi fotografado Por minhas retinas: Rotina que passa Despercebida Está ali o tempo todo E sou cega

É ausência!

A crônica do olhar anunciado Foi retida na memória Das cenas sociais políticas É melhor enxergar menos

Meu enquadramento Em graus Me ensina A não piscar

* com a ilustração talentosamente inspiradora de mário jr.

11.6.07

...


Amanhã é distante
A manhã vem e me abraça
A toa eu fico
A toalha vem e me aquece
Amassa meu corpo
A massa de carne, sangue...
Caratê e jazz
Cara de quem jaz
Quem disse?
Dicionário
Cadê?
Cadeado

(meu eu dentro do seu mim)

Ocaso é curto
O caso vem e me escapa
Ímpar eu fico
(in) pares vem e me completam
Afoga meu corpo
O fogo de lágrima, suor...
Linguagem e cama
Língua de quem kamasutra
Quem fez?
Fissurado
Caça?
Caçado.

7.6.07

UM CARDUME


um caleidoscópio
de peixes
cardume
me navega

recortes fragmentados
de espelhos sem face
onde me vejo

caixas
para me esconder
dentro
do som de uma gaita noturna

e o brilho laminado
cor de rosa
da minha língua
umedece
o sal
que espanta
a solidão

6.6.07

UM AZUL


A cadeira
Era de balanço
Sempre apontada
Para as ondas
Que saltavam
As redes
Que saltavam
Os sonhos
(Tintos de vinho)

Ela
Catava uma concha
E ouvia
O barulho infinito
Do mar

(Como ele foi parar ali dentro?)

Perguntou ao vento
No instante
Em que a lua
Rodou gigante

4.6.07

UMA OUTRA CONFUSÃO

obs: outra obra cedida pelo amigo e artista mário jr.
http://www.fotolog.com/mario_quemario


Minhas criaturas
Rodopiam
Nas pontas dos dedos

Me escapam
Me perco em mim

Quantas sou
Se sou prisma?

Elas, as criaturas,
São adeptas
A manipulação:
Jogo múltiplo
De ases nas mangas
Pés no tatame
Água no espelho

Suor dentro
Do fundo
Dos olhos


Minhas criaturas
Descansam
No centro do coração

Me espiam
Me encontro em mim

Quantas sou
Se sou chapa maciça?

Elas, as criaturas,
São usuárias
Da emoção:
Partida única
De cartas na mesa
Balanço em rede
Risos no lago

Sol fora
Do raso
Da mão

UMA CONFUSÃO



Minhas criaturas Minhas criaturas
Rodopiam Descansam
Nas pontas dos dedos No centro do coração

Me escapam Me espiam
Me perco em mim Me encontro em mim

Quantas sou Quantas sou
Se sou prisma? Se sou chapa maciça?

Elas, as criaturas, Elas, as criaturas,
São adeptas São usuárias
A manipulação: Da emoção:
Jogo múltiplo Partida única
De ases nas mangas De cartas na mesa
Pés no tatame Balanço em rede
Água no espelho Risos no lago

Suor dentro Sol fora
Do fundo Do raso
Dos olhos Da mão


* com o ilustrativo talento do companheiro mário jr. http://www.fotolog.com/mario_quemario



UM EU

Sou palavras
Pelos poros
Elas ganham o mundo
O meu
Sou do mundo
Dos poros das palavras
As minhas
Sou poros
a suar mundos de palavras

29.5.07

OLHAR DE FORA QUE VÊ DENTRO

Obra: Labirintos da Anna
"No mundo do talvez...sou a melhor ou a pior pessoa para falar sobre esse ser complexo e cheio de ?????? sua fúria me é necessária...seu planeta AK contém poesia singular...visível somente a olhos ávidos por vida. Amizade é sua principal cultura. Uma Mafalda na minha existência. E se ela não existisse? seria meu objetivo único, transpor todas as veredas literárias para inventá-la como personagem essencial à humanidade."

by Lanna Dioum

"EXISTIMOS PORQUE ALGUÉM PENSA EM NÓS E NÃO O CONTRÁRIO"

* para menino hugo

Duas mulheres que carregam nos ombros o destino de tantas outras. A profissão mais antiga do mundo gera particularidades de uma vida cruel, humana, sensível e poética. "No tempo em que a maçã foi inventada, antes da pólvora, da roda e do jornal, a mulher passou a ser culpada pelos deslizes do pecado original..." Muitas sociedades machistas querem garantir os direitos sobre o corpo da mulher, impor padrão estético, e reafirmar que o valor está numa película no meio das pernas. Por sonhos de purpurina aceitam a condição de mulher máquina, para que num futuro possam ser princesas, possam ter alguém que as busque no trabalho ou para garantir a comida dos filhos, mas a força feminina não se esconde num orifício. Com que direito alguém se lambuza e até mesmo usa de agressão para esbarrar numa auto-afirmação condicionada pelo "nojo" de querer ser dono do mundo? Dupla subjugação: preço e ilegalidade.No meio do caos aparente, a sensibilidade surge para revelar que quem gera o futuro das nações, quem faz do amor uma palavra de ordem e quem abre mão de suas escolhas por doação aos seus, nunca se perde dessa solidariedade, sempre estará com a mão estendida a quem precisa. Pétalas de um jardim em decomposição, no fundo do olhar trazem a esperança infantil de um mundo melhor, descobrem que o verdadeiro prazer da vida consiste em ter paixão por seja lá o que for desempenhar, e que um carinho sincero e uma verdadeira amizade, não possuem hipoteca. Basta ter atenção que um dia tudo muda para melhor, pode ser hoje que você decide sua própria vida!

UMA CONSTATAÇÃO


a vida adulta
doía nas costelas
pesava nos ombros
trazia lentes nos olhos

a vida adulta
batia na cara
e nas contas a pagar

a vida adulta
as vezes era adúltera

a vida adulta
sangrava
tossia

a vida adulta?
sim, era uma alegria

filha da puta!

* com o ilustrativo talento do companheiro mário jr. / http://www.fotolog.com/mario_quemario

CONFISSÕES DO DIABO E O SERTÃO OU DORAMOR



Eu distorcido no espelho de galhos retorcidos e chuva que não acaba mais. Cinco meses sem um descanso de Deus. Eu e Ele no oco do sertão. Ser tão vazio é meu coração. Machucamos os espinhos das flores que um dia encontrei nas grutas que dormi para aquietar os batedores do meu peito cabeludo. Luto de lua nos meus olhos fundos de choro de menino perdido. Com esforço de suar escuto longe a melodia que ouvi num sei quando. Escuto estrondos e corro com os sete bichos do mato. Um touro entra n'eu e mando e desmando no mundo. Fogo de labareda preta cuspindo das ventas. Urro e rodopio com a espora. Desconfio. Nunca aprendi a rezar umas rimas de fé amém. Sento no toco e fumo a fumaça devagarim e ela vai subindo subindo subindo, e com ela os pensamentos de morte. Tenho gosto da maldade humana e ela faz eu entender quando aparece o bem. Gosto as vezes e desgosto noutras. Sou um sino de agonia. Eu sinto um ardor me comendo as tripas quando num tô com ela. Espero a visita que darei um dia e o mesmo ardor doendo de um jeito que inda num conheço. Durmo e amanheço sem saber de verdade se ela tem cheiro e se posso pegar. O ar quente do meu nariz esquenta o frio que faz eu tremer de fogo bobo que eu acho morar no coração. Minha alegria explode de tontura igual quando o Diabo pede cana e danço na minha cabeça igual doutor que fez aula. Valso até o dia acabar. Raiar os ventos e a natureza toda, brincar com as formigas. E se vem um bicho grande saído de um buraco da terra e mete sem piedade a pata em cima do buraquinho que é a vida delas, uma parte do mundo deixa de ser e passa a não ser. Fica sendo um passado que segue com a gente até o futuro do encantamento.


* com a criatividade do meu querido mário jr. / http://www.fotolog.com/mario_quemario

24.5.07

UMA VEIA QUE CORRE


dentro de mim
uma orquestra
que chora:

saudade

dentro de mim
uma mulher
que ama:

euforia

fora da orquestra
uma sinfonia inacabada
notas soltas:
clave sem sol

fora da mulher
um parto interrompido
sangue coagulado:
feto sem mãe

(dó no violão)

UM SEGREDO


A barriga
De uma mulher grávida
Gera segredos

Carrega mundos

Águas de esquecimento
Sangue de memória

Nutre o verde do amanhã

E o depois

Se acumula nos restos
De um cinzeiro
Que vigia o quarto durante os escuros

17.5.07

NA LIDA (Para João Guimarães Rosa)




Ela foi com o rumo que só os que foram um dia ou uma noite conheciam. O peso que martelava os mirrados ombros era das mortes que mascarou nos meios e cantos dos matos. Nas ruas que corroíam seu rosto: rios ruidosos que as lágrimas fizeram ferida. O fundo do mundo morava nas margens da vista cansada que, em silêncio, fotografava o espaço do piscar do olho de quem não pode dormir. Com esse amontoado de vida, ela foi.
Não teve folga de olhar para o que caía no caminho. Engolia a seco o que sobrava da carne seca. Não dormia nem em rede de tropeiro. Tropeçava onde não havia o clarão da lua. Com as botas sete léguas dos bandeirantes, passo a passo, ela foi.

Cantou pro coração ninar no escuro as canções das suas bonecas de pano. Diminuindo iam seus pés e mãos a agarrar nos caules sem água. Sentia a sede a surrar sua língua. Cambaleava. Com os dias contados, ela foi. Se foi no rumo da estória que era a sua.
Desfaleceu com o grito do primeiro bicho que acorda o dia. Não se movia nem fingia que era a morte, era o fim de tudo que amarrava as vontades da sua alma. Ela até então, foi forte.

No quente do corpo corria sangue índio. Coragem. No quente da cama corriam as pernas bambas. Descoragem. Com a queimadura dos brios, ela foi. Uma crespa barba que, de mês em mês, por ali passava, avistou da lonjura de sua sabença, o que não era do sertão: o corpo da mulher. Sem saber, o rude, que ela era tão sertão. Sempre foi. Na morenice e suor dos braços deixou-se acalentar. Foi mar. Foi fogo. Desmanchou o ar. Foi devagar. Foi junto. Foi amar. Sentiu essas cócegas até sentir a desvontade dos carinhos.

O galo cantava todo dia. Era esse seu tempo. E o que antes era bom e feliz, transformava-se em tristeza triste, daquelas que espanta do espelho o escorrer do choro. Com a garganta trancada, trancou-se da mata. Enfiou na cabeça que ia coser o aberto do rombo. Ela foi.Já na beira do abismo examinou com os pés a textura da poeira que subia com o vento frio que anuncia uma desgraça. Transmutava-se em touro bravo de arena. Crescia. Ansiava pelo assobio secreto dos rumores (que surgem nas curvas das estradas perdidas). O duelo travava-se entre o medo e a memória do que já se esquecia. Corria no vão dos pensamentos maldosos. Atirada em vôo sem guia permitia-se ao mergulho. Foi empurrada pelo o que tem o nome vida. Foi sem cria. Ela foi para sempre foice.