3.8.10

PEQUENA CRÔNICA DE TERÇA

Caminho pelo Setor Comercial Sul e respiro a prostituição, não das moças que se esquivam de carros na miopia da vida, mas dos protótipos a candidatos, dos protótipos que bajulam os protótipos a candidatos e daqueles que se entregam à míngua a fim de extorquir migalhas dos mesmos protótipos a candidatos. Vale tudo na autoeleição, seja de quem disputa vaga no setor público, seja de quem disputa público nas calçadas. O circo aboliu a lona. O palhaço esqueceu a bola no nariz. O equilibrista usa a corda para se enforcar. Pelo bem, pelo mal o show tem que continuar, de tempos em tempos, de agosto a agosto, mesmo com gosto insosso.
Caminho pelo Setor Comercial e perco o norte, cai dos meus bolsos sem emissão de barulho. Perco qualquer sinal de alegria, alheia, se abaixo para enlaçar o cadarço. E alguém procura estacionamento na cabeça de outro alguém. Um camarada leva um caldo de algum cana. Um flanelinha ajeita a gravata. Um pastel é sacudido pelo vento.
Caminho pelo Setor e setas me acuam. Não cruzo as pernas e assumo estar na dança 'prostitulation', mas ao abrir o espelho entendo que nada pode ir contra a própria natureza. Com as pontas dos dedos sinto as protuberâncias das espinhas que visitam minha testa, atestado de que não tenho moldes, minhas costuras eu mesma traço. Alguém buzina e me traz profunda saudade do Abelardo. Me traz vontade de ir para casa fazer chacrinha.

Um comentário:

Marcio Nicolau disse...

Anna, "é o circo de novo". Amei a crônica!